Memórias do cinema de rua - Manoel Lopes Neto


O menino das matinês
Por Manoel Lopes Neto (Crítico de cinema) - Conheça a FILMOTECA - REVISTA DE CINEMA, o Clube de Cinema Seu Manolo e muito mais! > linktr.ee/filmoteca.seu.manolo

O ano era 1967. O personagem, um garoto de 10 anos. O lugar, a cidade de Presidente Prudente, SP. Não uma cidade qualquer, mas um verdadeiro parque de diversões. Ele morava no centro, estudava de manhã e tinha toda a tarde livre. Saía pela cidade sem ao menos avisar a mãe, quanto mais pedir permissão. Não era necessário. Eram outros tempos.

O menino seguia praticamente sempre o mesmo percurso. A primeira parada era a loja de discos, para checar se tinha chegado alguma novidade da Jovem Guarda, dos Beatles, de Chico Buarque. Chico, sim! Ele tinha ficado acordado até as três da manhã assistindo à final do III Festival de MPB da TV Record.

A segunda parada era a loja de brinquedos. Ele conhecia cada detalhe da vitrine e conferia diariamente se havia alguma mudança, alguma novidade. Sonhava em possuir alguns daqueles brinquedos, principalmente o Autorama.

A terceira parada era a loja de revistas. Conferia um a um os gibis nas prateleiras para escolher a compra da semana. Depois seguia até a estação de rádio, onde era cantor mirim nos programas de domingo de manhã.

Passava então pelo bar e restaurante de seu pai, onde pegava na bomboniere algumas balas e chicletes, além de algum dinheiro com a Edna, a caixa do lugar. Só então estava pronto para a atração principal.

Ele já sabia de cor a programação semanal dos cinemas da cidade, pois, em seu passeio vespertino, os cinemas de rua eram sua atração preferida. Todos os dias checava os cartazes e sabia exatamente quais filmes seriam exibidos dali por diante. Naquele dia o destino era certo: o Cine João Gomes. A grande atração: "O Fofoqueiro", com Jerry Lewis. Imperdível, como todas as matinês que exibiam filmes com censura para menores de 10 anos.



Aos domingos, porém, a atração era um pouco diferente. Munido de cerca de 50 gibis, à uma da tarde ele já estava na calçada do Cine Presidente, onde encontrava dezenas de outros garotos. Até as 13h45 tinha trocado praticamente todos. Deixava os quadrinhos numa panificadora próxima e entrava na magia das matinês de domingo, num cinema lotado de garotos ansiosos para torcer por Tarzan, Durango Kid, Zorro. E vibravam com o sucesso do herói como se fosse um gol em final de campeonato.



Eram anos dourados, os melhores de sua vida. E não teve jeito: o menino se tornou um cinéfilo e frequentou os cinemas de rua enquanto eles existiram. Hoje, é só saudade!


São Paulo (SP), 25/09/2026


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BIBLIOGRAFIA DO SITE

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

Site Novo Milênio, de Santos - SP
www.novomilenio.inf.br/santos

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Fotos exclusivas com publicação autorizada no site dos acervos particulares de Joel La Laina Sene, Caio Quintino,
Luiz Carlos Pereira da Silva e Ivany Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.