O ano era 1967. O personagem, um garoto de 10 anos. O lugar,
a cidade de Presidente Prudente, SP. Não uma cidade qualquer, mas um verdadeiro
parque de diversões. Ele morava no centro, estudava de manhã e tinha toda a
tarde livre. Saía pela cidade sem ao menos avisar a mãe, quanto mais pedir
permissão. Não era necessário. Eram outros tempos.
O menino seguia praticamente sempre o mesmo percurso. A
primeira parada era a loja de discos, para checar se tinha chegado alguma
novidade da Jovem Guarda, dos Beatles, de Chico Buarque. Chico, sim! Ele tinha
ficado acordado até as três da manhã assistindo à final do III Festival de MPB
da TV Record.
A segunda parada era a loja de brinquedos. Ele conhecia cada
detalhe da vitrine e conferia diariamente se havia alguma mudança, alguma
novidade. Sonhava em possuir alguns daqueles brinquedos, principalmente o
Autorama.
A terceira parada era a loja de revistas. Conferia um a um
os gibis nas prateleiras para escolher a compra da semana. Depois seguia até a
estação de rádio, onde era cantor mirim nos programas de domingo de manhã.
Passava então pelo bar e restaurante de seu pai, onde pegava
na bomboniere algumas balas e chicletes, além de algum dinheiro com a Edna, a
caixa do lugar. Só então estava pronto para a atração principal.
Ele já sabia de cor a programação semanal dos cinemas da
cidade, pois, em seu passeio vespertino, os cinemas de rua eram sua atração
preferida. Todos os dias checava os cartazes e sabia exatamente quais filmes
seriam exibidos dali por diante. Naquele dia o destino era certo: o Cine João
Gomes. A grande atração: "O Fofoqueiro", com Jerry Lewis. Imperdível,
como todas as matinês que exibiam filmes com censura para menores de 10 anos.
Aos domingos, porém, a atração era um pouco diferente.
Munido de cerca de 50 gibis, à uma da tarde ele já estava na calçada do Cine Presidente, onde encontrava dezenas de outros garotos. Até as 13h45 tinha
trocado praticamente todos. Deixava os quadrinhos numa panificadora próxima e
entrava na magia das matinês de domingo, num cinema lotado de garotos ansiosos
para torcer por Tarzan, Durango Kid, Zorro. E vibravam com o sucesso do herói como
se fosse um gol em final de campeonato.
Eram anos dourados, os melhores de sua vida. E não teve
jeito: o menino se tornou um cinéfilo e frequentou os cinemas de rua enquanto
eles existiram. Hoje, é só saudade!
São Paulo (SP), 25/09/2026

