Entre fantasmas e ruínas, os escombros do Cine Universo, um dos maiores cinemas do país, em 1984. (Foto de Joel La Laina, do arquivo do CCSP, extraída do livro
“Salas de Cinema em São Paulo”, de1990, de Inimá Simões).
Originalmente, este texto foi publicado como coluna do newsletter Cinema em São Paulo, que integro junto de outros amigos. Lá divulgamos, três vezes por semana, a programação das salas de repertório e dos cineclubes da cidade. Mas nunca quisemos nos limitar a fazer apenas isso. A própria existência de textos como esse, publicados mensalmente em nosso Substack (cinemaemsp.substack.com), reforçam essa ideia, assim como outros projetos, que um dia esperamos conseguir tirar do papel. Se me pedissem para resumir nossas intenções em uma só frase, eu diria que o que tentamos fazer é olhar a cidade através do cinema.
Muito já se falou sobre o modo como, desde o princípio, se filmou São Paulo, ou seja, como a cidade foi tomada como objeto, retratada, vista e representada. No entanto, invertendo a equação, me proponho a pensar, neste texto, não a São Paulo do cinema, mas os cinemas de São Paulo. As salas espalhadas pela cidade, das mais monumentais às mais tímidas. Pois, observando esses espaços, podemos entender mais sobre a cidade em que vivemos.
No princípio do século XX, a afirmação de São Paulo enquanto uma metrópole moderna demandava, decisivamente, a existência dos cinemas. E então eles surgiram, se concentrando inicialmente no “triângulo histórico” do Centro, recortado pelas ruas Direita, Quinze de novembro e São Bento.
Posteriormente, eles se proliferaram na região da República, popularizando-se o nome “Cinelândia Paulistana”, e ocupando ainda diversas outras áreas da cidade. Aparecem então grandes e imponentes salas, com milhares de lugares e extensamente adornadas. Ir ao cinema torna-se um programa refinado e frequentar esses espaços passa a ser, também, um marcador de classe.
Homens enfileirados na entrada do Art Palácio - que a essa altura ainda se chamava
Ufa Palácio -, projetado por Rino Levi, em 1936.
Mas a relação dos paulistanos com a “ida ao cinema” não é trivial, nem comum, mesmo em comparação com outras grandes metrópoles da época. Havia um frenesi em torno do cinema, e a cidade se orgulhava disso. No livro “Salas de Cinema em São Paulo”, de 1990, Inimá Simões comenta que, durante as comemorações do IV Centenário da cidade em 1954, vangloriou-se o fato de que São Paulo vendia mais ingressos de cinema do que vários países europeus. O cinema era, realmente, a “maior diversão”. Mesmo em meio a uma realidade profundamente desigual, ele sintetizava, nesse contexto, uma espécie de sonho urbano, uma forma especial de viver e participar da cidade. E sair à rua para ver um filme era partilhar desse sonho.
O Cine Marabá - um dos poucos da Cinelândia que sobrevivem até os dias de hoje - na noite de estréia de Ângela (1951), produção da Vera Cruz (Imagem extraída do
Porém, o espírito da cidade se transforma com o tempo, e as salas também se modificam. Nos anos 60 e 70, o ocaso econômico do Centro vai, aos poucos, mudando o perfil dos frequentadores das salas e, diante do aumento de popularidade da televisão e do surgimento das primeiras salas em Shopping Centers, os antigos cinemas precisam se reinventar. Com a queda do número de frequentadores, as salas de milhares de lugares perdem sentido, e muitas são divididas em duas (ou até mais) para compensar o prejuízo. Além disso, a crescente preocupação com a segurança urbana torna a rua um ambiente indesejado, e o lazer doméstico assume protagonismo.
Anúncios de filmes em cartaz em algumas das principais salas da cidade, publicados na Folha de S.Paulo no dia 6 de dezembro de 1971. Na imagem, é possível ver o
A acentuação desse processo faz com que, entre os anos 80 e 90, inúmeras salas de cinema de rua encerrem suas atividades. Muitas se transformam em igrejas, outras em bingos e, por que não, em estacionamentos. Algumas sobrevivem exibindo filmes eróticos, outras são demolidas, e há ainda aquelas que ficam simplesmente abandonadas. Elas estão por aí, espalhadas pela cidade, ainda que nós, na maioria das vezes, não nos demos conta.
Em matéria do dia 30 de agosto de 1999, a Folha de S.Paulo abordava a decadência dos clássicos cinemas de rua da cidade.
Em agosto do ano passado, um evento em particular acentuou o meu interesse pelos cinemas antigos da cidade, me levando a pesquisar um pouco mais e, finalmente, escrever este texto. A ocasião foi uma exposição da artista Manoela Cezar, realizada nas ruínas do Cine Paissandú, na República, intitulada “Caverna Fantasma”.
Fundado em 1957, o Cine Paissandú passou, rigorosamente, por todas as fases que descrevi acima. A sala, inicialmente com capacidade para mais de dois mil espectadores, foi dividida em duas, uma superior e uma inferior, em 1973. No começo dos anos 2000, o cinema encerrou suas atividades, tendo a essa altura funcionado também como bingo já há algum tempo. Hoje, virou estacionamento, com carros parados em seu luxuoso hall de entrada, decorado com colunas coloridas, escadas de mármore e mosaicos representando danças típicas brasileiras, que ainda estão lá, escondidos por entre os veículos. O espaço que abrigava a sala de baixo também está ocupado por carros. Já a sala de cima, acessada a partir de alguns lances de escada, está relativamente preservada, considerando o grau de abandono do lugar.
Na imagem de cima, o Paissandú em 1957, ano de sua inauguração (Imagem extraída do Blog Salas de Cinema de São Paulo). Na imagem de baixo, o espaço já transformado em estacionamento (Foto de Manoela Cezar).
A exposição era composta por duas videoinstalações, uma na sala de baixo e outra na sala de cima. As imagens das projeções, os sons utilizados e o próprio ambiente fantasmagórico das ruínas do cinema produziram, em mim, uma impressão fortíssima. Um lugar em que milhares de pessoas circulavam alegremente e se divertiam, convertido em um cemitério de memórias.
Carros estacionados no luxuoso hall de entrada do Paissandú (Foto tirada por mim em
Desde então, fui atrás de saber mais sobre os cinemas da cidade, e a verdade é que há bastante informação por aí. Além do livro do Inimá Simões que mencionei, fruto de ampla pesquisa e facilmente acessível na internet, friso aqui o trabalho do blog Salas de Cinema de São Paulo, criado e administrado por Antonio Ricardo Soriano, fonte quase inesgotável de conhecimentos sobre o tema, e a série de vídeos "Salas de Sonhos”, da Spcine, disponível no YouTube.
Mas por que é importante falar disso agora? Bom, eu acredito que estamos vivendo um momento crucial para a preservação do patrimônio cultural edificado paulistano, sobretudo no Centro. Se o Centro passou por décadas de abandono e ostracismo, agora vemos um processo de revalorização em curso. Ainda que o Centro nunca tenha deixado, de fato, de ser frequentado, é verdade que ele voltou a figurar com mais ênfase no “mapa cultural” da cidade, e isso é positivo. Mas esse processo traz em seu bojo uma violenta especulação imobiliária, que vê o Centro como uma mina de ouro para novos empreendimentos.
Alguns dos mais emblemáticos cinemas da história da cidade, como o Cine Ipiranga, o Art Palácio e o Cine Marrocos, são tombados e foram desapropriados pela Prefeitura. Ainda assim, apesar de parecerem relativamente protegidos, os prédios seguem abandonados, degradados e nenhum projeto de revitalização nunca saiu do papel. Além disso, notícias recentes indicaram que o Marrocos foi repassado para o Governo do Estado, que pretende negociá-lo com a iniciativa privada, em um “pacote” que envolve o edifício do antigo Hotel Esplanada. O Marrocos, um dos mais monumentais cinemas da cidade, que se tornou ocupação nos anos 2010, simboliza a história da região em que se encontra. Essa história será contada? Se esses espaços forem reabilitados, a população poderá usufruir deles?
A situação atual do Marrocos (Foto tirada por mim em 7 de setembro de 2025).
E, se essa é a situação de salas tombadas e que pertencem à Prefeitura, imagine a de lugares como o Paissandú, e tantos outros prédios, que um dia foram cinemas, mas hoje estão esquecidos. Existe um grande patrimônio que ajuda a contar parte significativa da história e da memória de São Paulo, e ele deve ser protegido. Mas antes disso, as pessoas precisam saber que esse patrimônio existe.
Seguindo esse propósito, nós, do Cinema em São Paulo, estamos trabalhando em materiais sobre os antigos cinemas da cidade, sobretudo os menos conhecidos. Além disso, tendo em mente que essa história não diz respeito apenas à região central, vamos falar de salas escondidas em diferentes bairros e regiões de São Paulo. Nosso primeiro vídeo sobre o tema, que trata do Cinespacial - sala circular, com três telas, localizada na Av. São João -, já está no ar em nosso instagram (@cinemaemsp).
Assim como eu, mais da metade da equipe do nosso newsletter não é daqui, e tem sido um prazer imenso descobrir essa cidade através do cinema - e de seus cinemas. Esperamos, humildemente, que possamos ajudar a cidade a se fazer conhecer por aqueles que moram nela. Vamos ouvir as ruas, elas têm muito a dizer.
Mas a relação dos paulistanos com a “ida ao cinema” não é trivial, nem comum, mesmo em comparação com outras grandes metrópoles da época. Havia um frenesi em torno do cinema, e a cidade se orgulhava disso. No livro “Salas de Cinema em São Paulo”, de 1990, Inimá Simões comenta que, durante as comemorações do IV Centenário da cidade em 1954, vangloriou-se o fato de que São Paulo vendia mais ingressos de cinema do que vários países europeus. O cinema era, realmente, a “maior diversão”. Mesmo em meio a uma realidade profundamente desigual, ele sintetizava, nesse contexto, uma espécie de sonho urbano, uma forma especial de viver e participar da cidade. E sair à rua para ver um filme era partilhar desse sonho.
O Cine Marabá - um dos poucos da Cinelândia que sobrevivem até os dias de hoje - na noite de estréia de Ângela (1951), produção da Vera Cruz (Imagem extraída do
Porém, o espírito da cidade se transforma com o tempo, e as salas também se modificam. Nos anos 60 e 70, o ocaso econômico do Centro vai, aos poucos, mudando o perfil dos frequentadores das salas e, diante do aumento de popularidade da televisão e do surgimento das primeiras salas em Shopping Centers, os antigos cinemas precisam se reinventar. Com a queda do número de frequentadores, as salas de milhares de lugares perdem sentido, e muitas são divididas em duas (ou até mais) para compensar o prejuízo. Além disso, a crescente preocupação com a segurança urbana torna a rua um ambiente indesejado, e o lazer doméstico assume protagonismo.
Anúncios de filmes em cartaz em algumas das principais salas da cidade, publicados na Folha de S.Paulo no dia 6 de dezembro de 1971. Na imagem, é possível ver o
Cine Iguatemi, localizado no Iguatemi São Paulo, pioneiro na onda de salas em
Shopping Centers.
A acentuação desse processo faz com que, entre os anos 80 e 90, inúmeras salas de cinema de rua encerrem suas atividades. Muitas se transformam em igrejas, outras em bingos e, por que não, em estacionamentos. Algumas sobrevivem exibindo filmes eróticos, outras são demolidas, e há ainda aquelas que ficam simplesmente abandonadas. Elas estão por aí, espalhadas pela cidade, ainda que nós, na maioria das vezes, não nos demos conta.
Em matéria do dia 30 de agosto de 1999, a Folha de S.Paulo abordava a decadência dos clássicos cinemas de rua da cidade.
Em agosto do ano passado, um evento em particular acentuou o meu interesse pelos cinemas antigos da cidade, me levando a pesquisar um pouco mais e, finalmente, escrever este texto. A ocasião foi uma exposição da artista Manoela Cezar, realizada nas ruínas do Cine Paissandú, na República, intitulada “Caverna Fantasma”.
Fundado em 1957, o Cine Paissandú passou, rigorosamente, por todas as fases que descrevi acima. A sala, inicialmente com capacidade para mais de dois mil espectadores, foi dividida em duas, uma superior e uma inferior, em 1973. No começo dos anos 2000, o cinema encerrou suas atividades, tendo a essa altura funcionado também como bingo já há algum tempo. Hoje, virou estacionamento, com carros parados em seu luxuoso hall de entrada, decorado com colunas coloridas, escadas de mármore e mosaicos representando danças típicas brasileiras, que ainda estão lá, escondidos por entre os veículos. O espaço que abrigava a sala de baixo também está ocupado por carros. Já a sala de cima, acessada a partir de alguns lances de escada, está relativamente preservada, considerando o grau de abandono do lugar.
Na imagem de cima, o Paissandú em 1957, ano de sua inauguração (Imagem extraída do Blog Salas de Cinema de São Paulo). Na imagem de baixo, o espaço já transformado em estacionamento (Foto de Manoela Cezar).
A exposição era composta por duas videoinstalações, uma na sala de baixo e outra na sala de cima. As imagens das projeções, os sons utilizados e o próprio ambiente fantasmagórico das ruínas do cinema produziram, em mim, uma impressão fortíssima. Um lugar em que milhares de pessoas circulavam alegremente e se divertiam, convertido em um cemitério de memórias.
Carros estacionados no luxuoso hall de entrada do Paissandú (Foto tirada por mim em
31 de agosto de 2025).
Desde então, fui atrás de saber mais sobre os cinemas da cidade, e a verdade é que há bastante informação por aí. Além do livro do Inimá Simões que mencionei, fruto de ampla pesquisa e facilmente acessível na internet, friso aqui o trabalho do blog Salas de Cinema de São Paulo, criado e administrado por Antonio Ricardo Soriano, fonte quase inesgotável de conhecimentos sobre o tema, e a série de vídeos "Salas de Sonhos”, da Spcine, disponível no YouTube.
Mas por que é importante falar disso agora? Bom, eu acredito que estamos vivendo um momento crucial para a preservação do patrimônio cultural edificado paulistano, sobretudo no Centro. Se o Centro passou por décadas de abandono e ostracismo, agora vemos um processo de revalorização em curso. Ainda que o Centro nunca tenha deixado, de fato, de ser frequentado, é verdade que ele voltou a figurar com mais ênfase no “mapa cultural” da cidade, e isso é positivo. Mas esse processo traz em seu bojo uma violenta especulação imobiliária, que vê o Centro como uma mina de ouro para novos empreendimentos.
Alguns dos mais emblemáticos cinemas da história da cidade, como o Cine Ipiranga, o Art Palácio e o Cine Marrocos, são tombados e foram desapropriados pela Prefeitura. Ainda assim, apesar de parecerem relativamente protegidos, os prédios seguem abandonados, degradados e nenhum projeto de revitalização nunca saiu do papel. Além disso, notícias recentes indicaram que o Marrocos foi repassado para o Governo do Estado, que pretende negociá-lo com a iniciativa privada, em um “pacote” que envolve o edifício do antigo Hotel Esplanada. O Marrocos, um dos mais monumentais cinemas da cidade, que se tornou ocupação nos anos 2010, simboliza a história da região em que se encontra. Essa história será contada? Se esses espaços forem reabilitados, a população poderá usufruir deles?
A situação atual do Marrocos (Foto tirada por mim em 7 de setembro de 2025).
E, se essa é a situação de salas tombadas e que pertencem à Prefeitura, imagine a de lugares como o Paissandú, e tantos outros prédios, que um dia foram cinemas, mas hoje estão esquecidos. Existe um grande patrimônio que ajuda a contar parte significativa da história e da memória de São Paulo, e ele deve ser protegido. Mas antes disso, as pessoas precisam saber que esse patrimônio existe.
Seguindo esse propósito, nós, do Cinema em São Paulo, estamos trabalhando em materiais sobre os antigos cinemas da cidade, sobretudo os menos conhecidos. Além disso, tendo em mente que essa história não diz respeito apenas à região central, vamos falar de salas escondidas em diferentes bairros e regiões de São Paulo. Nosso primeiro vídeo sobre o tema, que trata do Cinespacial - sala circular, com três telas, localizada na Av. São João -, já está no ar em nosso instagram (@cinemaemsp).
Assim como eu, mais da metade da equipe do nosso newsletter não é daqui, e tem sido um prazer imenso descobrir essa cidade através do cinema - e de seus cinemas. Esperamos, humildemente, que possamos ajudar a cidade a se fazer conhecer por aqueles que moram nela. Vamos ouvir as ruas, elas têm muito a dizer.















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