O cinema antes de mim (e depois de nós)
Por Priscila Constantino Sales - Historiadora.
Antes de eu nascer, o cinema já tinha passado por Assis como quem passa deixando marca no chão e no jeito das pessoas. As cidades do interior guardam esse tipo de rastro: não é só um prédio, não é só uma programação, é uma forma de vida que se acende e se apaga conforme o vento da modernidade, conforme o dinheiro muda de mãos, conforme a paisagem urbana decide o que fica e o que é substituído.
Eu aprendi, pesquisando e vivendo, que território e memória são quase a mesma coisa. Cidades são palco de trabalho coletivo, de luta simbólica e também de imaginação, mesmo longe dos grandes centros. Talvez por isso o cinema seja tão perigoso e tão precioso no interior: porque ele organiza uma experiência coletiva do sonho. Não apenas porque muitas pessoas assistem juntas, mas porque o cinema só se completa quando é partilhado. No interior, ver um filme sempre foi também comentá-lo, debatê-lo, carregá-lo para fora da sala. E sonho coletivo, no interior, nunca é só sonho. É disputa por presença.
Quando a gente olha para trás, parece que as coisas simplesmente mudaram: o que era cinema virou outra coisa; o prédio virou loja, virou igreja, virou ruína. Mas o que a memória sabe, e o arquivo confirma, é que existe um gesto constante nessa modernidade: ela constrói e, ao mesmo tempo, apaga. Troca o lugar da experiência por uma nova função “mais útil”, segundo o lucro, e deixa, por baixo, uma memória subterrânea que resiste em pedaços, em narrativas, em gente que ainda lembra. Essa memória, porém, não apenas conserva: ela age. De tempos em tempos, encontra brechas para se reorganizar, reconstruir salas, inventar novos formatos e reinscrever o cinema na cidade como experiência viva. Imaginar não é rentável, e é por isso que importa.
Foi assim com o Cine Theatro Avenida, conhecido como Cine Gato Preto, onde as sessões eram acompanhadas por música instrumental ao vivo, executada por uma pianista, e onde a cidade viu, pela primeira vez, o cinema ganhar voz com a chegada do filme falado e dos grandes sucessos hollywoodianos — hoje, no mesmo endereço, funciona um shopping. Foi assim com o Cine São José, que marcou gerações com exibições de westerns italianos e épicos históricos e que hoje se reduz a mais um ponto comercial no mapa da cidade. Foi assim com o Cine São Vicente, nascido de um centro católico no final da década de 1960, que se tornou espaço central de sociabilidade da comunidade assisense, recebendo inclusive excursões de cidades vizinhas, e que, felizmente, abriga hoje o Teatro Municipal Padre Enzo Ticinelli. E foi assim, de maneira ainda mais insistente, com o Cine Peduti, o cinema que mais vezes precisou se reinventar: sala luxuosa, cinema popular, espaço do cineclubismo, Cinema Regina, Cinema FAC, até chegar ao atual Cine Piracaia.
Esses cinemas não desapareceram da mesma forma, alguns foram apagados, outros reaproveitados, outros ressignificados. O que permanece, contudo, não é o prédio em si, mas a experiência acumulada: filas na calçada, sessões cheias, encontros amorosos, excursões escolares, debates que atravessavam a noite, estudantes descobrindo, na tela, mundos que ainda não tinham nome para si. É nesse acúmulo frágil, descontínuo, sempre ameaçado que a cultura cinematográfica se forma, não como nostalgia, mas como força ativa, capaz de reaparecer sempre que encontra uma brecha.
É nesse entre apagamento e permanência que o Cine Peduti, hoje Cine Piracaia, se afirma como síntese: não apenas um cinema que restou, mas o lugar onde todas as outras salas continuam a reverberar, como a última dobra visível de uma história que a cidade, apesar de tudo, insiste em reconstruir.
Quando fui ao arquivo, eu não estava procurando apenas datas. Procurava o modo como uma cidade do interior inventa o seu próprio cinema. Foi ali que encontrei uma frase que poderia ser o retrato de Assis - ou, talvez, do que acontece quando o cinema encontra uma cidade disposta: “o que me encantou em Assis foi que a vontade de conhecer não se separa de uma contagiante alegria de viver.” Paulo Emílio Salles Gomes disse isso em 1967, durante sua visita ao Clube de Cinema da FAFIA/UNESP, no contexto das sessões-debate realizadas no Cine Peduti. A frase funciona quase como uma ética: ela afirma que conhecer não é uma atividade fria, mas uma experiência que pode ser encontro, festa e força coletiva.
Quando digo “cinema antes de mim”, portanto, não me refiro apenas às salas ou aos filmes. Falo de um movimento. De gente que insistiu em tornar o cinema assunto público e prática social e, em alguns casos, profissão. Não se tratava de “passar filme”, mas de deslocar pessoas, criar diálogo, construir repertório. Era o interior se reconhecendo como lugar de pensamento. A cidade muda, os prédios mudam, os hábitos mudam, mas a pergunta permanece: quem sustenta o direito ao imaginário quando a modernidade tenta transformar tudo em utilidade? O cinema antes de mim já respondia: não se sustenta sozinho, ele precisa de gente.
Rastrear
Em algum momento, o cinema deixou de ser apenas lembrança e virou pergunta. Eu já não queria só recordar as salas, os filmes, as histórias contadas pela cidade; eu queria entender como aquilo tinha sido possível e, principalmente, como essa história se materializava nos cinemas de rua, sobretudo no Cine Peduti, ou seja, o atual Cine Piracaia.
Entrar no arquivo foi uma espécie de deslocamento afetivo. Aquilo que eu conhecia como memória dispersa aparecia organizado em caixas, pastas, listas, atas, programas de exibição, recortes de jornal. O cinema que eu havia vivido como sensação agora existia como rastro material: papel timbrado, calendários, textos para debate. Não era mais só uma história contada, era uma história escrita, e isso mudou tudo.
Foi ali que eu entendi que o Clube de Cinema não era um capricho de cinéfilos. Era um projeto deliberado de formação cultural, sustentado por anos, atravessando universidade e cidade, estabelecendo convênios e ocupando o cinema comercial como espaço de debate. O cinema em Assis não tinha acontecido por acaso. Ele tinha sido produzido.
E os números, esses que o arquivo permite enunciar, dão corpo ao que a memória às vezes romantiza. As sessões do Clube reuniam, em média, 200 a 205 pessoas por exibição, com frequência de até dois filmes por semana. Em um recorte analisado, são 31 filmes, sendo 16 exibidos no Cine Peduti, sempre seguidos de debate mediado por professores. Não era um público pequeno, nem um ato isolado: era um acontecimento cultural recorrente, instalado no coração da cidade.
Há uma imagem documental que eu não consigo esquecer: a notícia de 27 de setembro de 1967 informando que 347 pessoas assistiram a M, o Vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang), com cerca de 80 pessoas permanecendo para um debate de quase duas horas. É uma cena que a cidade já não vê com facilidade: uma sala do interior lotada para conversar sobre ele.
As listas de filmes exibidos confirmam a ambição desse repertório: Ladrões de Bicicletas (De Sica), A Paixão de Ana (Bergman), sessões especiais de documentários brasileiros (Batuque, Urbis, Folias do Divino, Bahia de pedra e de ouro), além de uma Semana do Cinema Brasileiro com filmes de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Maurice Capovilla, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, Carlos Diegues, Zé do Caixão, acompanhada de debates e conferências. Não era “programação alternativa”: era uma política de formação do olhar, operando dentro do cinema de rua.
E havia também a dimensão do risco. Essas práticas atravessaram o regime militar, num período em que discutir política, exibir certos filmes, convidar certos debatedores, não era neutro. O cinema funcionava como um espaço de respiração. Às vezes protegido pela condição interiorana, às vezes vigiado, mas sustentado por uma convicção: ver e pensar coletivamente é uma forma de existir.
Foi nesse ponto que algo se deslocou dentro de mim. Compreender a história do cinema no interior deixou de ser apenas compreender o passado e passou a significar reconhecer uma responsabilidade no presente. Eu já não conseguia olhar para aquelas listas como simples dados: cada título, cada sessão, cada debate era uma aposta num cinema que também poderia partir do interior.
Aos poucos, entendi que a minha trajetória individual, o gosto pelo cinema, a escolha pelo estudo, o desejo de fazê-lo existir, não era apenas pessoal, mas efeito direto de uma política cinematográfica construída ao longo do tempo. Essa constatação não veio como teoria. Veio como incômodo.
Foi ali que percebi que o gesto mais radical não era escrever sobre isso, mas continuar fazendo isso existir. O arquivo me mostrou que o cinema em Assis sempre dependeu de gente, e de um lugar onde essa gente pudesse se encontrar no escuro. O Cine Peduti, não é apenas um vestígio dessa história: é o espaço onde ela segue em disputa.
Ver no escuro
Se o arquivo me deu o esqueleto histórico, a memória devolve a carne. O cinema aparece como corpo na cadeira, como frio na barriga, como ritual coletivo. E, mais uma vez, Assis surge como personagem central, porque ser espectadora no interior é sempre viver uma experiência dupla: a do acontecimento e a da escassez. O cinema é grande quando acontece e frágil porque pode, a qualquer momento, deixar de acontecer. Essa instabilidade não diminui sua força. Ao contrário, é parte do que a torna intensa.
Eu era adolescente quando entrei pela primeira vez no Cinema FAC, levada pela escola. Havia a fila organizada, a autorização assinada, a professora pedindo silêncio como se aquilo fosse uma cerimônia. A sala estava lotada, com pessoas sentadas nos corredores. Éramos mais de 550. Era 1994, e o filme era O Rei Leão. Sem saber, eu aprendia que chorar junto com desconhecidos tem uma força própria. Depois veio Titanic. A sala inteira se calou. Soluços surgiam, corpos imóveis, olhos presos à tela. Sem saber, eu aprendia que o cinema começa quando deixa de ser só meu.
Com o tempo, percebi que aqueles não eram os únicos filmes possíveis, nem os únicos modos de ver. Entre 2004 e 2014, passei a buscar as mostras, o cinema alternativo, as sessões que escapavam de alguma forma as regras do jogo cinematográfico. O encanto dava lugar ao atrito. Histórias interrompidas, silêncios incômodos, imagens que me deslocavam. Eu permanecia nos debates mesmo sem entender tudo, como quem sabe que algo importante estava em jogo. Olhar já não era passivo: quem está na tela? Quem fica de fora? Quem escolhe e decide o que merece ser visto?
No Cinema FAC, sobretudo aos domingos, a programação começou a se abrir para outros mundos. Filmes iranianos, argentinos, brasileiros experimentais, documentários políticos. Eram imagens que traziam corpos que eu nunca tinha visto, territórios que eu não conhecia, conflitos ausentes da televisão. As sessões ficavam cheias de estudantes. Lembro de Cafundó (Paulo Betti e Clóvis Bueno, 2005), com a presença de Paulo Betti, interrompendo a conversa para cobrar publicamente que o poder público resolvesse o problema do som da sala; de Che: O Argentino (Steven Soderbergh, 2008); de Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008); de Ela (Spike Jonze, 2013). Entre tantos filmes, um permanece como marca profunda: Otesánek (Jan Švankmajer, 2000), obra surrealista, entre o terror e a comédia sombria, que me ensinou que o cinema podia ser estranho, perturbador e, ainda assim, indispensável.
A cada sessão, a cidade parecia ganhar fôlego por algumas horas. O interior se alargava. Outros tempos e outras formas de existir se insinuavam naquela sala escura.
Não gosto de escrever isso, mas essa abertura não foi contínua. Depois dessa fase de exibições que misturava filmes comerciais, clássicos e cinema alternativo, o Cinema FAC passou longos anos com as portas fechadas. Ser espectadora em Assis foi, muitas vezes, aprender a conviver com essa ausência. Talvez por isso cada sessão tivesse peso de acontecimento e nunca de hábito. O cinema não era garantido, e exatamente por isso se tornava precioso.
Foi nesse vazio que outra questão começou a se impor. Até ali, o deslocamento vinha de olhar para fora. Faltava ainda reconhecer o próprio território como imagem possível. O cinema deixava de ser apenas janela e passava a ser palco de mais uma disputa: agora pelo direito de existir na tela. A pergunta retornava: Quem está na tela? Quem não está? Quem fala? Quem escolhe? Quem decide o que merece ser visto?
Sustentar
Nos anos que cercam a pandemia, o Cine Piracaia voltou a ocupar um lugar familiar em sua própria história: o da pausa. Um tempo em que tudo para e, ao mesmo tempo, se rearranja. O antigo Cine Peduti, nesse momento Cine Piracaia, foi refeito por dentro a partir de uma grande reforma conduzida pela Fundação Educacional do Município de Assis (FEMA). A sala ganhou outra escala: a tela cresceu, o som passou a operar em sistema 7.1, a projeção tornou-se digital 4K a laser. Um cinema de rua dos anos 1960, no interior paulista, passou a abrigar a maior tela de cinema do interior do Brasil, com 17 metros de largura, preservando seus mais de 540 assentos originais.
Era um gigante refeito por dentro.
E, ainda assim, um gigante que abriu as portas poucas vezes.
Entre pandemia, disputas políticas e instabilidades institucionais, o Cine Piracaia permaneceu fechado. As portas se abriam poucas vezes. Quando se abriam, era sobretudo para receber filmes feitos aqui. Filmes produzidos no próprio território, por realizadores do interior, por pessoas que, como eu, cresceram diante de telas que raramente devolviam sua própria imagem ou história.
Foi nesse intervalo instável que surgiu o Polo Audiovisual do Velho Oeste, do qual faço parte. Um projeto que nasce da recusa em pensar o cinema apenas como obra final. O Polo se constrói como cadeia, processo e encontro, como política pública enraizada no território. Formação, produção e circulação passaram a ser pensadas como um mesmo gesto contínuo. E foi no Cine Piracaia que esse gesto encontrou chão, abrigo e visibilidade.
Ali passaram a acontecer as principais ações de circulação do Polo, como o Festival Curta Velho Oeste, voltado aos cinemas dos interiores do Brasil, e a Mostra Terrytóryos de Cinema e Educação. O cinema que eu havia conhecido como espectadora de mundos distantes tornava-se, enfim, um lugar para reconhecer o nosso. A experiência deixava de caber em mim e passava a ocupar a cidade.
Foi então que a tela começou a devolver aquilo que durante décadas esteve ausente: o próprio território. Filmes realizados em Assis e na região passaram a ocupar o Cine Piracaia, reposicionando o olhar. O interior deixava de ser ausência e passava a existir na tela como narrativa, conflito e imaginação. Curtas como Cidade by Motoboy (Mariana Vita, 2019), Veredas (Igor Rossato, 2025), Marmita (Guilherme Peraro, 2024), Não Tem Vida Aqui (Lorena dos Santos Corrêa; Vitória Alessandra da Silva de Carvalho, 2024), A Vida na Terra (Aryell Souza Silva; Kayanna Miura, 2023), Chama no Passinho! (Igor de Lucca Rossato, 2023) e Ainda Restarão Robôs nas Ruas do Interior Profundo (Guilherme Xavier Ribeiro, 2022) não apenas passaram pela sala: fizeram o cinema olhar de volta para a cidade.
Ao longo de suas edições, o Curta Velho Oeste reuniu milhares de espectadores, recebeu centenas de filmes de diferentes interiores do país, ampliou mostras, criou ações formativas e consolidou parcerias com escolas, universidades e coletivos culturais. Mais do que números, produziu circulação de sentido. Gente entrando e saindo da sala, conversas que continuavam na calçada, crianças ocupando o cinema pela primeira vez, jovens vendo filmes feitos por eles próprios, professores levando as discussões para a sala de aula.
Há uma imagem que permanece. Na exibição de Chama no Passinho!, realizado em escolas municipais de Assis, o protagonista Gustavo, um garoto de oito anos com Síndrome de Down, sobe ao palco e convoca toda a turma para dançar. O enredo é simples. A imagem, imensa. Ver Gustavo assistindo a si mesmo, dançando diante de uma grande tela de cinema, foi inesquecível. A cidade inteira parecia caber ali.
Acontecimentos como esse se multiplicaram. População do bairro Santa Clara, professores, alunos e alunas, comunidades quilombolas, assentamentos, pessoas que encontramos na padaria ou nas ruas estavam ali, se vendo e se reconhecendo. Nossa beleza e nossos conflitos apareciam diante de nós, ampliados numa tela de 17 metros de largura, atravessados por um som 7.1. O cinema deixava de ser distância e voltava a ser presença.
Esses momentos tornaram evidente que cultura não é ornamento, que imaginação não é luxo, que imaginar é direito. Não se trata apenas de programar filmes, mas de sustentar um espaço onde o pensamento coletivo possa existir. Um espaço onde o interior possa se reconhecer como produtor de imagens, e não apenas como cenário.
Quando volto ao início, ao cinema que existia antes de mim, percebo que o gesto é o mesmo. Pessoas reunidas no escuro para imaginar juntas. O cinema que já foi Cine Peduti, Cinema Regina, Cinema FAC, Cine FEMA Piracaia, e hoje Cine Piracaia, resistiu, se reinventou e, agora, retorna à esfera pública, sob a Secretaria de Cultura, à espera de uma programação cotidiana que acolha o cinema regional, nacional e internacional. É isso que a cidade merece. É isso que o público espera.
Assis (SP) - 06/02/2026
Priscila Sales é doutora em História, com o tema cineclubismo (no mestrado) e cinema de mulheres (no doutorado), pela UNESP-FCL/Assis-SP. Conta ainda com Especialização em Gestão Cultural, pelo SENAC e graduação em Pedagogia. Possui experiência em docência nas disciplinas de História, Filosofia e História da Arte, como também em pesquisas, editoração, funcionamento e organização de arquivos, centros de documentação e memória. No campo da Cultura tem formação complementar em Roteiro de Cinema, Direção de arte e Edição pela Academia Internacional de Cinema, atua com produção de eventos culturais, espetáculos artísticos, exposições e mostras cinematográficas. Autora do livro "Arte em Movimento: a Trajetória do Clube de Cinema de Assis", publicado pela Editora Appris em 28 de maio de 2019.






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