Memórias do cinema de rua - Priscila Sales


O cinema antes de mim (e depois de nós)
Por 
Priscila Constantino Sales - Historiadora.

Antes de eu nascer, o cinema já tinha passado por Assis como quem passa deixando marca no chão e no jeito das pessoas. As cidades do interior guardam esse tipo de rastro: não é só um prédio, não é só uma programação, é uma forma de vida que se acende e se apaga conforme o vento da modernidade, conforme o dinheiro muda de mãos, conforme a paisagem urbana decide o que fica e o que é substituído.

Eu aprendi, pesquisando e vivendo, que território e memória são quase a mesma coisa. Cidades são palco de trabalho coletivo, de luta simbólica e também de imaginação, mesmo longe dos grandes centros. Talvez por isso o cinema seja tão perigoso e tão precioso no interior: porque ele organiza uma experiência coletiva do sonho. Não apenas porque muitas pessoas assistem juntas, mas porque o cinema só se completa quando é partilhado. No interior, ver um filme sempre foi também comentá-lo, debatê-lo, carregá-lo para fora da sala. E sonho coletivo, no interior, nunca é só sonho. É disputa por presença.

Quando a gente olha para trás, parece que as coisas simplesmente mudaram: o que era cinema virou outra coisa; o prédio virou loja, virou igreja, virou ruína. Mas o que a memória sabe, e o arquivo confirma, é que existe um gesto constante nessa modernidade: ela constrói e, ao mesmo tempo, apaga. Troca o lugar da experiência por uma nova função “mais útil”, segundo o lucro, e deixa, por baixo, uma memória subterrânea que resiste em pedaços, em narrativas, em gente que ainda lembra. Essa memória, porém, não apenas conserva: ela age. De tempos em tempos, encontra brechas para se reorganizar, reconstruir salas, inventar novos formatos e reinscrever o cinema na cidade como experiência viva. Imaginar não é rentável, e é por isso que importa.

Foi assim com o Cine Theatro Avenida, conhecido como Cine Gato Preto, onde as sessões eram acompanhadas por música instrumental ao vivo, executada por uma pianista, e onde a cidade viu, pela primeira vez, o cinema ganhar voz com a chegada do filme falado e dos grandes sucessos hollywoodianos — hoje, no mesmo endereço, funciona um shopping. Foi assim com o Cine São José, que marcou gerações com exibições de westerns italianos e épicos históricos e que hoje se reduz a mais um ponto comercial no mapa da cidade. Foi assim com o Cine São Vicente, nascido de um centro católico no final da década de 1960, que se tornou espaço central de sociabilidade da comunidade assisense, recebendo inclusive excursões de cidades vizinhas, e que, felizmente, abriga hoje o Teatro Municipal Padre Enzo Ticinelli. E foi assim, de maneira ainda mais insistente, com o Cine Peduti, o cinema que mais vezes precisou se reinventar: sala luxuosa, cinema popular, espaço do cineclubismo, Cinema Regina, Cinema FAC, até chegar ao atual Cine Piracaia.





Esses cinemas não desapareceram da mesma forma, alguns foram apagados, outros reaproveitados, outros ressignificados. O que permanece, contudo, não é o prédio em si, mas a experiência acumulada: filas na calçada, sessões cheias, encontros amorosos, excursões escolares, debates que atravessavam a noite, estudantes descobrindo, na tela, mundos que ainda não tinham nome para si. É nesse acúmulo frágil, descontínuo, sempre ameaçado que a cultura cinematográfica se forma, não como nostalgia, mas como força ativa, capaz de reaparecer sempre que encontra uma brecha.

É nesse entre apagamento e permanência que o Cine Peduti, hoje Cine Piracaia, se afirma como síntese: não apenas um cinema que restou, mas o lugar onde todas as outras salas continuam a reverberar, como a última dobra visível de uma história que a cidade, apesar de tudo, insiste em reconstruir.

Quando fui ao arquivo, eu não estava procurando apenas datas. Procurava o modo como uma cidade do interior inventa o seu próprio cinema. Foi ali que encontrei uma frase que poderia ser o retrato de Assis - ou, talvez, do que acontece quando o cinema encontra uma cidade disposta: “o que me encantou em Assis foi que a vontade de conhecer não se separa de uma contagiante alegria de viver.” Paulo Emílio Salles Gomes disse isso em 1967, durante sua visita ao Clube de Cinema da FAFIA/UNESP, no contexto das sessões-debate realizadas no Cine Peduti. A frase funciona quase como uma ética: ela afirma que conhecer não é uma atividade fria, mas uma experiência que pode ser encontro, festa e força coletiva.

Quando digo “cinema antes de mim”, portanto, não me refiro apenas às salas ou aos filmes. Falo de um movimento. De gente que insistiu em tornar o cinema assunto público e prática social e, em alguns casos, profissão. Não se tratava de “passar filme”, mas de deslocar pessoas, criar diálogo, construir repertório. Era o interior se reconhecendo como lugar de pensamento. A cidade muda, os prédios mudam, os hábitos mudam, mas a pergunta permanece: quem sustenta o direito ao imaginário quando a modernidade tenta transformar tudo em utilidade? O cinema antes de mim já respondia: não se sustenta sozinho, ele precisa de gente.

Rastrear

Em algum momento, o cinema deixou de ser apenas lembrança e virou pergunta. Eu já não queria só recordar as salas, os filmes, as histórias contadas pela cidade; eu queria entender como aquilo tinha sido possível e, principalmente, como essa história se materializava nos cinemas de rua, sobretudo no Cine Peduti, ou seja, o atual Cine Piracaia.

Entrar no arquivo foi uma espécie de deslocamento afetivo. Aquilo que eu conhecia como memória dispersa aparecia organizado em caixas, pastas, listas, atas, programas de exibição, recortes de jornal. O cinema que eu havia vivido como sensação agora existia como rastro material: papel timbrado, calendários, textos para debate. Não era mais só uma história contada, era uma história escrita, e isso mudou tudo.

Foi ali que eu entendi que o Clube de Cinema não era um capricho de cinéfilos. Era um projeto deliberado de formação cultural, sustentado por anos, atravessando universidade e cidade, estabelecendo convênios e ocupando o cinema comercial como espaço de debate. O cinema em Assis não tinha acontecido por acaso. Ele tinha sido produzido.

E os números, esses que o arquivo permite enunciar, dão corpo ao que a memória às vezes romantiza. As sessões do Clube reuniam, em média, 200 a 205 pessoas por exibição, com frequência de até dois filmes por semana. Em um recorte analisado, são 31 filmes, sendo 16 exibidos no Cine Peduti, sempre seguidos de debate mediado por professores. Não era um público pequeno, nem um ato isolado: era um acontecimento cultural recorrente, instalado no coração da cidade.

Há uma imagem documental que eu não consigo esquecer: a notícia de 27 de setembro de 1967 informando que 347 pessoas assistiram a M, o Vampiro de Düsseldorf (Fritz Lang), com cerca de 80 pessoas permanecendo para um debate de quase duas horas. É uma cena que a cidade já não vê com facilidade: uma sala do interior lotada para conversar sobre ele.

As listas de filmes exibidos confirmam a ambição desse repertório: Ladrões de Bicicletas (De Sica), A Paixão de Ana (Bergman), sessões especiais de documentários brasileiros (Batuque, Urbis, Folias do Divino, Bahia de pedra e de ouro), além de uma Semana do Cinema Brasileiro com filmes de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Maurice Capovilla, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias, Carlos Diegues, Zé do Caixão, acompanhada de debates e conferências. Não era “programação alternativa”: era uma política de formação do olhar, operando dentro do cinema de rua.

E havia também a dimensão do risco. Essas práticas atravessaram o regime militar, num período em que discutir política, exibir certos filmes, convidar certos debatedores, não era neutro. O cinema funcionava como um espaço de respiração. Às vezes protegido pela condição interiorana, às vezes vigiado, mas sustentado por uma convicção: ver e pensar coletivamente é uma forma de existir.

Foi nesse ponto que algo se deslocou dentro de mim. Compreender a história do cinema no interior deixou de ser apenas compreender o passado e passou a significar reconhecer uma responsabilidade no presente. Eu já não conseguia olhar para aquelas listas como simples dados: cada título, cada sessão, cada debate era uma aposta num cinema que também poderia partir do interior.

Aos poucos, entendi que a minha trajetória individual, o gosto pelo cinema, a escolha pelo estudo, o desejo de fazê-lo existir, não era apenas pessoal, mas efeito direto de uma política cinematográfica construída ao longo do tempo. Essa constatação não veio como teoria. Veio como incômodo.

Foi ali que percebi que o gesto mais radical não era escrever sobre isso, mas continuar fazendo isso existir. O arquivo me mostrou que o cinema em Assis sempre dependeu de gente, e de um lugar onde essa gente pudesse se encontrar no escuro. O Cine Peduti, não é apenas um vestígio dessa história: é o espaço onde ela segue em disputa.

Ver no escuro

Se o arquivo me deu o esqueleto histórico, a memória devolve a carne. O cinema aparece como corpo na cadeira, como frio na barriga, como ritual coletivo. E, mais uma vez, Assis surge como personagem central, porque ser espectadora no interior é sempre viver uma experiência dupla: a do acontecimento e a da escassez. O cinema é grande quando acontece e frágil porque pode, a qualquer momento, deixar de acontecer. Essa instabilidade não diminui sua força. Ao contrário, é parte do que a torna intensa.

Eu era adolescente quando entrei pela primeira vez no Cinema FAC, levada pela escola. Havia a fila organizada, a autorização assinada, a professora pedindo silêncio como se aquilo fosse uma cerimônia. A sala estava lotada, com pessoas sentadas nos corredores. Éramos mais de 550. Era 1994, e o filme era O Rei Leão. Sem saber, eu aprendia que chorar junto com desconhecidos tem uma força própria. Depois veio Titanic. A sala inteira se calou. Soluços surgiam, corpos imóveis, olhos presos à tela. Sem saber, eu aprendia que o cinema começa quando deixa de ser só meu.

Com o tempo, percebi que aqueles não eram os únicos filmes possíveis, nem os únicos modos de ver. Entre 2004 e 2014, passei a buscar as mostras, o cinema alternativo, as sessões que escapavam de alguma forma as regras do jogo cinematográfico. O encanto dava lugar ao atrito. Histórias interrompidas, silêncios incômodos, imagens que me deslocavam. Eu permanecia nos debates mesmo sem entender tudo, como quem sabe que algo importante estava em jogo. Olhar já não era passivo: quem está na tela? Quem fica de fora? Quem escolhe e decide o que merece ser visto?



No Cinema FAC, sobretudo aos domingos, a programação começou a se abrir para outros mundos. Filmes iranianos, argentinos, brasileiros experimentais, documentários políticos. Eram imagens que traziam corpos que eu nunca tinha visto, territórios que eu não conhecia, conflitos ausentes da televisão. As sessões ficavam cheias de estudantes. Lembro de Cafundó (Paulo Betti e Clóvis Bueno, 2005), com a presença de Paulo Betti, interrompendo a conversa para cobrar publicamente que o poder público resolvesse o problema do som da sala; de Che: O Argentino (Steven Soderbergh, 2008); de Ensaio Sobre a Cegueira (Fernando Meirelles, 2008); de Ela (Spike Jonze, 2013). Entre tantos filmes, um permanece como marca profunda: Otesánek (Jan Švankmajer, 2000), obra surrealista, entre o terror e a comédia sombria, que me ensinou que o cinema podia ser estranho, perturbador e, ainda assim, indispensável.

A cada sessão, a cidade parecia ganhar fôlego por algumas horas. O interior se alargava. Outros tempos e outras formas de existir se insinuavam naquela sala escura.

Não gosto de escrever isso, mas essa abertura não foi contínua. Depois dessa fase de exibições que misturava filmes comerciais, clássicos e cinema alternativo, o Cinema FAC passou longos anos com as portas fechadas. Ser espectadora em Assis foi, muitas vezes, aprender a conviver com essa ausência. Talvez por isso cada sessão tivesse peso de acontecimento e nunca de hábito. O cinema não era garantido, e exatamente por isso se tornava precioso.

Foi nesse vazio que outra questão começou a se impor. Até ali, o deslocamento vinha de olhar para fora. Faltava ainda reconhecer o próprio território como imagem possível. O cinema deixava de ser apenas janela e passava a ser palco de mais uma disputa: agora pelo direito de existir na tela. A pergunta retornava: Quem está na tela? Quem não está? Quem fala? Quem escolhe? Quem decide o que merece ser visto?

Sustentar

Nos anos que cercam a pandemia, o Cine Piracaia voltou a ocupar um lugar familiar em sua própria história: o da pausa. Um tempo em que tudo para e, ao mesmo tempo, se rearranja. O antigo Cine Peduti, nesse momento Cine Piracaia, foi refeito por dentro a partir de uma grande reforma conduzida pela Fundação Educacional do Município de Assis (FEMA). A sala ganhou outra escala: a tela cresceu, o som passou a operar em sistema 7.1, a projeção tornou-se digital 4K a laser. Um cinema de rua dos anos 1960, no interior paulista, passou a abrigar a maior tela de cinema do interior do Brasil, com 17 metros de largura, preservando seus mais de 540 assentos originais.

Era um gigante refeito por dentro.
E, ainda assim, um gigante que abriu as portas poucas vezes.

Entre pandemia, disputas políticas e instabilidades institucionais, o Cine Piracaia permaneceu fechado. As portas se abriam poucas vezes. Quando se abriam, era sobretudo para receber filmes feitos aqui. Filmes produzidos no próprio território, por realizadores do interior, por pessoas que, como eu, cresceram diante de telas que raramente devolviam sua própria imagem ou história.

Foi nesse intervalo instável que surgiu o Polo Audiovisual do Velho Oeste, do qual faço parte. Um projeto que nasce da recusa em pensar o cinema apenas como obra final. O Polo se constrói como cadeia, processo e encontro, como política pública enraizada no território. Formação, produção e circulação passaram a ser pensadas como um mesmo gesto contínuo. E foi no Cine Piracaia que esse gesto encontrou chão, abrigo e visibilidade.

Ali passaram a acontecer as principais ações de circulação do Polo, como o Festival Curta Velho Oeste, voltado aos cinemas dos interiores do Brasil, e a Mostra Terrytóryos de Cinema e Educação. O cinema que eu havia conhecido como espectadora de mundos distantes tornava-se, enfim, um lugar para reconhecer o nosso. A experiência deixava de caber em mim e passava a ocupar a cidade.



Foi então que a tela começou a devolver aquilo que durante décadas esteve ausente: o próprio território. Filmes realizados em Assis e na região passaram a ocupar o Cine Piracaia, reposicionando o olhar. O interior deixava de ser ausência e passava a existir na tela como narrativa, conflito e imaginação. Curtas como Cidade by Motoboy (Mariana Vita, 2019), Veredas (Igor Rossato, 2025), Marmita (Guilherme Peraro, 2024), Não Tem Vida Aqui (Lorena dos Santos Corrêa; Vitória Alessandra da Silva de Carvalho, 2024), A Vida na Terra (Aryell Souza Silva; Kayanna Miura, 2023), Chama no Passinho! (Igor de Lucca Rossato, 2023) e Ainda Restarão Robôs nas Ruas do Interior Profundo (Guilherme Xavier Ribeiro, 2022) não apenas passaram pela sala: fizeram o cinema olhar de volta para a cidade.

Ao longo de suas edições, o Curta Velho Oeste reuniu milhares de espectadores, recebeu centenas de filmes de diferentes interiores do país, ampliou mostras, criou ações formativas e consolidou parcerias com escolas, universidades e coletivos culturais. Mais do que números, produziu circulação de sentido. Gente entrando e saindo da sala, conversas que continuavam na calçada, crianças ocupando o cinema pela primeira vez, jovens vendo filmes feitos por eles próprios, professores levando as discussões para a sala de aula.

Há uma imagem que permanece. Na exibição de Chama no Passinho!, realizado em escolas municipais de Assis, o protagonista Gustavo, um garoto de oito anos com Síndrome de Down, sobe ao palco e convoca toda a turma para dançar. O enredo é simples. A imagem, imensa. Ver Gustavo assistindo a si mesmo, dançando diante de uma grande tela de cinema, foi inesquecível. A cidade inteira parecia caber ali.



Acontecimentos como esse se multiplicaram. População do bairro Santa Clara, professores, alunos e alunas, comunidades quilombolas, assentamentos, pessoas que encontramos na padaria ou nas ruas estavam ali, se vendo e se reconhecendo. Nossa beleza e nossos conflitos apareciam diante de nós, ampliados numa tela de 17 metros de largura, atravessados por um som 7.1. O cinema deixava de ser distância e voltava a ser presença.

Esses momentos tornaram evidente que cultura não é ornamento, que imaginação não é luxo, que imaginar é direito. Não se trata apenas de programar filmes, mas de sustentar um espaço onde o pensamento coletivo possa existir. Um espaço onde o interior possa se reconhecer como produtor de imagens, e não apenas como cenário.

Quando volto ao início, ao cinema que existia antes de mim, percebo que o gesto é o mesmo. Pessoas reunidas no escuro para imaginar juntas. O cinema que já foi Cine Peduti, Cinema Regina, Cinema FAC, Cine FEMA Piracaia, e hoje Cine Piracaia, resistiu, se reinventou e, agora, retorna à esfera pública, sob a Secretaria de Cultura, à espera de uma programação cotidiana que acolha o cinema regional, nacional e internacional. É isso que a cidade merece. É isso que o público espera.

Assis (SP) - 06/02/2026

Priscila Sales é doutora em História, com o tema cineclubismo (no mestrado) e cinema de mulheres (no doutorado), pela UNESP-FCL/Assis-SP. Conta ainda com Especialização em Gestão Cultural, pelo SENAC e graduação em Pedagogia. Possui experiência em docência nas disciplinas de História, Filosofia e História da Arte, como também em pesquisas, editoração, funcionamento e organização de arquivos, centros de documentação e memória. No campo da Cultura tem formação complementar em Roteiro de Cinema, Direção de arte e Edição pela Academia Internacional de Cinema, atua com produção de eventos culturais, espetáculos artísticos, exposições e mostras cinematográficas. Autora do livro "Arte em Movimento: a Trajetória do Clube de Cinema de Assis", publicado pela Editora Appris em 28 de maio de 2019.

Memórias do cinema de rua - Kátia Coelho


Vida de cinema
Por Kátia Coelho - Diretora de fotografia*.

Quando criança – anos 60, dos 5 aos 10 anos –, minha brincadeira preferida era recortar com uma tesoura revistas de fotonovelas italianas traduzidas para o português. A romântica Grande Hotel – ou as de ação, como Jacques Douglas, Lucky Martin e Jennifer – faziam parte do meu repertório.




A produção original dessas fotonovelas era geralmente feita por editoras italianas e elas eram conhecidas como fotoromanzi. A grande estrela das fotonovelas era Claudia Rivelli, irmã da premiada atriz Ornella Muti.

Essas revistas eram as minhas favoritas para o 'picote' e eram lidas, com constância, por minha avó materna, com quem eu morava com meu irmão e minha mãe.

Como em toda esquina nos anos 60, havia uma banca de jornal logo na saída do prédio onde morávamos. Minha avó tinha 'conta' na banca e comprava muitas fotonovelas para nós e gibis para meu irmão. Com muito gosto, usava sua aposentadoria para suas leituras e provia de sonhos nossa imaginação de crianças filhas de mãe solo desquitada – algo raro na época.

Minha mãe, que trabalhava todos os dias para sustentar a casa, lia revistas mais informativas, como Realidade e Cruzeiro. Meu irmão – além dos gibis – colecionava enciclopédias sobre animais, cujos fascículos saíam semanalmente nas bancas, mas eu não podia recortar! A partir dessas 'fotografias escolhidas', eu criava personagens e montava cenários.

Lembro-me de construir 'cidades' com os recortes, separando os espaços das casas e colocando na cama os personagens recortados, além de livros físicos que habitavam a estante da minha mãe.

Ou seja, fazia – e desfazia – uma grande bagunça dentro do nosso apartamento enquanto eu – fora do ambiente familiar, uma criança calada – organizava as minhas ideias.

O prédio em que morávamos ficava ao lado de um cinema, 
o cine Jamor.




Pelas paredes da sala, eu ouvia o som dos filmes que lá eram exibidos, ao mesmo tempo que frequentava assiduamente as sessões de cinema com minha família.

Aos 5, assisti inúmeras vezes a Help!, o filme dirigido por Richard Lester e protagonizado pelos Beatles. Assim, me apaixonei por John, Paul, George e Ringo até que a morte nos separe a todos. Assim aconteceu, também, com Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, amor à primeira vista. Todos esses 'conhecidos' passaram a fazer parte do meu 'saco de recortes' fotográficos e a protagonizar 
minhas histórias.

Mais do que pensar um futuro ao escolher qual carreira seguir – sem consciência do fato –, repensei um passado ao me tornar uma diretora de fotografia. Hoje vejo que fui muito influenciada pelo entorno natural da minha vida na infância. Frequentávamos os cinemas de bairro todo final de semana, eram muitos! Definitivamente, ir ao cinema era o programa preferido dos 
domingos da família.

No cine Sabará assistimos – em estreia, 1967 – a Mogli: O Menino Lobo, dos Estúdios Disney, com personagens e cenários 
desenhados à mão!




Ah!... a bomboniere do cine Sabará... Uma só guloseima para cada um, dizia minha mãe. Eu escolhia o pacotinho de 'Delicados', com sua balinha atômica azul de anis; meu irmão, o chocolate Diamante Negro, que dispensa apresentações. Nós acreditávamos, de verdade, que o chocolate tinha dentro diamantes, que se estraçalhavam a cada 'crac' que ouvíamos ao morder um pedaço.




Na Praça da Árvore – que não tinha árvores, e esse fato me deixava confusa – havia o cine Estrela.




O cine Estrela teve lá seus dias de glória, mas, no início dos anos 70, começou a oferecer um 'cardápio' de pornochanchadas em estreias. Lembro de ver exposto no saguão do cinema o cartaz de Lua de Mel e Amendoim – 1971 – com a diva Renata Sorrah.




Nessa época – sentada ao lado da minha avó –, eu já assistia telenovelas em uma pequena TV Sharp colorida e me apaixonei pela personagem Nívea, interpretada por Renata Sorrah.

A personagem Nívea da novela Assim na Terra como no Céu – escrita pelo dramaturgo Dias Gomes – foi assassinada no início da novela, o que gerou grande repercussão na época, com o público pedindo seu retorno. Para manter a personagem na história, o autor usou flashbacks como linguagem no enredo.

Nos anos 70 era muito comum 'personagens' reais sumirem, mas o meu 'eu criança' não fazia ideia da tristeza que assolava o país.

Quietinha, eu esperava os flashbacks para ver Renata Sorrah na telinha e, a todo custo, em 1971 – pedido não atendido –, queria assistir a Lua de Mel e Amendoim no cinema.

O cine San Remo ficava dentro de uma galeria na Av. Domingos de Moraes e, nesse mesmo espaço, ficava o banco onde minha avó recebia sua aposentadoria.




Não tenho lembranças de época desse cinema, mas no final dos anos 80, após virar uma igreja evangélica – primeiro triste destino de todos os grandes cinemas de rua –, se tornou uma locadora de iluminação do grupo Casablanca, infelizmente por pouco tempo.

Localizado na Av. Jabaquara, o cine Nilo se tornou uma grande loja de móveis nos anos 80.

Quis o destino que o cineasta Reinaldo Pinheiro filmasse um curta-metragem naquele espaço em 1987. O filme – Mais Luz, seu título – aborda, justamente, o universo das salas de cinema de rua e sua decadência, se minha ‘memória falha’ não se colocou em ação. Eu fui assistente de câmera nesse filme e – finalmente – convidei minha mãe, que morava perto, para acompanhar meu trabalho.

Meu irmão se tornou médico – gostava de enciclopédias de animais! – e eu, assistente de câmera de cinema! Ninguém na família entendia o que era meu trabalho. Achei que era uma ótima oportunidade para aproximar nossos universos de mãe e filha, convidando minha mãe para visitar um set de filmagem.





Ao chegar no set, minha mãe – que era massagista e foi nos visitar com uma amiga – me encontrou entre móveis poeirentos carregando duas caixas: a da câmera e uma Apple Box – a muito famosa, no meio cinematográfico brasileiro, a imprescindível 'três tabelas'.

O olhar da minha mãe – constrangido – ao me ver em ação não a deixava mentir: “Minha filha fez uma universidade e carrega caixas!”




AMPLIANDO HORIZONTES

Conheci o cine Astor em 1968, quando assistimos – a família – 2001: Uma Odisseia no Espaço. Não entendi nada; revi depois: 
uma obra-prima!




Novamente, um pouco mais adulta – 1970 –, “chorei” para assistir, no mesmo cine Astor, a um filme: Love Story, que era proibido para menores de 16 anos. Desta vez, a vítima escolhida para realizar meus desejos foi minha mãe e, inacreditavelmente, conseguimos driblar a censura e eu pude chorar – desta vez de verdade – na cena em que a heroína morre e lamenta nunca ter conhecido Paris.

No ensino médio – antigo colegial – estudei no Colégio Objetivo e cabulava aulas à tarde para ir ao cinema. Assisti, no cine Gazeta, a O Passageiro, dirigido por Antonioni, e Shampoo, estrelado por Warren Beatty, por quem – novamente – me apaixonei.

Atual Reserva Cultural – que pertence ao querido Jean-Thomas Bernardini –, a escadaria do Colégio Objetivo era parte integrante da experiência de ir ao cinema na Av. Paulista. Enfim, a tentação de não assistir às aulas da tarde e ir ao cinema – sozinha! – era imensa.




No saguão da mesma escadaria tive o prazer de ver meu nome na lista de aprovados no curso de cinema da USP! A Av. Paulista fervia com a alegria de calouros de todas as faculdades!




Ao entrar na universidade, passei de aluna descompensada a cinéfila! Muitos cinemas de rua – ou dentro de galerias – se passaram: cines Palmela, Comodoro, Olido, Regina, Marrocos, Arouche; os icônicos Bijou e Belas Artes – que pertence ao querido André Sturm –; cine Rio, Gemini, Top Cine, Metrópole, Copan, Majestic – atual Espaço Petrobras de Cinema, do mais que querido Adhemar Oliveira –, dentre outros.

Assim como Woody Allen em Hannah e suas Irmãs, acredito que o sentido da minha vida está – marxista que sou – em assistir a filmes dos Irmãos Marx.

Passei a maior parte da vida no cinema, tanto fisicamente quanto em pensamento e coração.

Na universidade, fazíamos semanalmente resenhas sobre filmes brasileiros para o querido professor Carlos Roberto de Sousa. Para isso acontecer, assistíamos semanalmente aos filmes brasileiros que entravam em cartaz, e muitos deles eram pornochanchadas. Com meu caderninho de anotações no colo, frequentemente era abordada por seres indesejáveis que me impediam de completar o trabalho.

No cine Paulistano assisti a um filme pornô em 3D.

Não posso esquecer a Mostra Internacional de São Paulo e suas filas imensas em frente ao Museu de Arte de São Paulo – MASP.

Sonho de estudante: poder comprar uma permanente integral e assistir a cinco filmes por dia na Mostra!

Nem posso deixar de citar os cineclubes Bixiga, Elétrico e da GV – mais uma vez, à frente, está aqui um jovem cinéfilo, André Sturm – e o maravilhoso CineSesc na Rua Augusta!

Enfim, essa é parte da minha gloriosa história como espectadora dos cinemas da minha cidade – São Paulo. Muitos cinemas depois, comecei a assistir aos filmes de que havia participado. Hoje, aos 66, habito – e tenho lá meu 'escritório imaginário' desde 1999 – o florido Cine Café Fellini. Com muitas lembranças, cafés e bolos gostosos feitos por Sílvia.




E lá – espero que demore muito – deixo lavrado aos amigos próximos: joguem minhas cinzas.

Porque – antes – quero conhecer Paris.

Esta é a minha história de amor – ao cinema!




São Paulo (SP) – 27/11/2025

*
Kátia Coelho iniciou sua carreira no cinema em 1983 como assistente de câmera, trabalhando em 19 filmes como primeira assistente. Foi a primeira mulher a dirigir a fotografia de um longa-metragem no Brasil, recebendo mais de trinta prêmios nacionais e internacionais.

Com Tônica Dominante, de Lina Chamie (2000) ganhou os prêmios Kodak Vision Award - Woman in Film em Los Angeles e APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte. Dirigiu a fotografia de A Via Láctea (2007), filme que representou o Brasil em Cannes.

Faz parte do núcleo de projetos da Veríssimo Produções, onde desenvolveu o roteiro e fez a produção executiva do longa metragem Terra de Ciganos, dirigido por Naji Sidki 
(2024). Kátia também é a produtora executiva de Dulcina (2019), documentário que retrata a vida da atriz e diretora Dulcina de Moraes, com depoimentos de artistas como Fernanda Montenegro e Ruth de Souza. O filme foi vencedor no Festival de Brasília, se garantindo nas categorias Melhor Longa-metragem pelo júri popular, Melhor Longa da Mostra Brasília pelo júri técnico, Melhor Direção de Arte e Melhor Atriz.

Seu último trabalho como diretora de fotografia foi o longa-metragem Diário de Viagem (2022), dirigido por Paula Kim, uma produção Sam Ka Pur - Dezenove Som e Imagem.

Por Mariana R. Marques.

Memórias do cinema de rua - Lea van Steen


Memórias da tela grande
Por Lea van Steen - Diretora, montadora e artista visual.

O ano era 1970 e eu tinha 5 anos. Foi a primeira vez que fui ao cinema. O filme era o desenho animado Bambi, de Walt Disney. O cinema era um dos que ficavam na Av. Santo Amaro. Estávamos muito excitadas e, logo na entrada, já éramos impactadas pelo grande recorte de madeira pintado à mão, com os personagens do filme. Era um cartaz em várias camadas - lindo!


Ao entrar na sala, o susto: eu nunca tinha visto uma “televisão” tão grande! A imagem era impressionante para o meu acentuado astigmatismo. O filme começou, e me lembro de que eu e minha irmã nos divertimos muito com a cena do pequeno Bambi aprendendo a andar e escorregando sem parar no gelo, com suas pernas desajeitadas e instáveis. O filme seguia fofo, até que a floresta pegou fogo. O desespero se instalou em meu coraçãozinho. Chorei e me escondi, agarrada à minha irmã. Foi a primeira vez que vivenciei a morte - ou, pior, percebi que minha mãe também poderia morrer.

Na mesma Av. Santo Amaro havia o Snob’s Auto Cine, um drive-in, e era muito divertido ir com a família no carrinho conversível do meu pai. O filme era uma espécie de Aladdin; era mágico ver aquela telona ao ar livre, à noite, tomando sorvete deitada no capô do carro ainda quente do motor. Nunca esqueci a cena do personagem encantado que passava serpenteando pelas grades para escapar da prisão. Não tenho ideia de que filme era, mas a cena me marcou - um efeito visual e tanto, que mexeu com a minha imaginação.
 



Quando estudava no Colégio Equipe, o cine Bijou ficava logo ali, e foi lá que pude ver vários filmes que me moldaram. Em qual outro cinema uma jovem de 13 anos poderia assistir a filmes de Bergman, Truffaut, Kurosawa? Eles não pediam documento - e nem precisavam, pois estava claro que eu não tinha a idade indicada. Pra quem tinha passado pela morte da mãe do Bambi, nada mais me abalaria (tanto).


O Cineclube Bixiga também era outro endereço aberto a todo tipo de público. Lá havia projeções em um toldo, logo na entrada do cinema. Enquanto esperávamos os filmes do Zé do Caixão, assistíamos às incríveis obras do cineasta canadense Norman McLaren, em que os sons da animação se somavam à animação de quem aguardava a próxima sessão.

Acho que fui a uma das últimas sessões do cine Comodoro, na Av. São João. O filme era Evita, de Alan Parker, e foi muito triste ver aquele gigante da tela curva (Cinerama) - palco dos filmes do 007 e outros feitos em 70 mm - deixar de existir.


Ainda temos alguns cinemas de rua - poucos, mas bons. 
Vida longa a eles!

São Paulo (SP) - 14/11/2025

A exposição Caverna Fantasma, de Manoela Cezar, no Cine Paissandú

Por Antonio Ricardo Soriano - Bibliotecário, pesquisador, criador e mantenedor do blog Salas de Cinema de São Paulo.

A exposição Caverna Fantasma, de Manoela Cezar, reativou temporariamente o Cine Paissandú - um dos cinemas mais emblemáticos da antiga Cinelândia Paulistana - com duas videoinstalações inéditas: Paissandú Drive-In e Caverna Fantasma.




Fruto de uma imersão de seis meses da artista no local, o projeto ocupou dois andares do edifício, incluindo uma sala que esteve fechada por mais de 20 anos. Ao resgatar a memória do espaço e propor novas experiências audiovisuais, a mostra ofereceu um encontro sensível entre passado e presente, cinema e arte contemporânea.

A exposição contou com acompanhamento curatorial e texto de Marcela VieiraConheça todos trabalhos da artista 
Manoela Cezar através do site manoelacezar.com

Realização: Ministério da Cultura e Governo Federal, 
por meio da Lei Paulo Gustavo
Apoio: Spcine e Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo
Organização: Espaço.CC
Produção: 

Saiba mais :
Cine Paissandu reabre com videoinstalações de Manoela Cezar
Fechado há mais de 20 anos, cinema histórico recebe obras inéditas de Manoela Cezar que exploram memória, abandono e fantasmagoria urbana
Do site CASACOR.

Registro da ecposição Caverna Fantasma de Manoela Cezar - 11/09/2025


Caverna Fantasma - Mesa de conversa com Manoela Cezar, Marcela Vieira e Pedro Vieira - 05/09/2025


Detalhes do antigo cine Paissandú durante a exposição Caverna Fantasma, de Manoela Cezar

Por Antonio Ricardo Soriano - Bibliotecário, pesquisador, criador e mantenedor do blog Salas de Cinema de São Paulo.

Ao visitar a exposição Caverna Fantasma, de Manoela Cezar, no cine Paissandú, aproveitei a oportunidade para registrar em detalhes os espaços abandonados do antigo cinema.







































Esta é a segunda sala, criada em 1973, a partir da construção de uma estrutura de madeira — que serviu de base para o palco e a tela — integrada aos dois balcões que já existiam no cinema.




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BIBLIOGRAFIA DO SITE

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

Site Novo Milênio, de Santos - SP
www.novomilenio.inf.br/santos

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Fotos exclusivas com publicação autorizada no site dos acervos particulares de Joel La Laina Sene, Caio Quintino,
Luiz Carlos Pereira da Silva e Ivany Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.