Por Kátia Coelho - Diretora de fotografia*.
Quando criança – anos 60, dos 5 aos 10 anos –, minha brincadeira preferida era recortar com uma tesoura revistas de fotonovelas italianas traduzidas para o português. A romântica Grande Hotel – ou as de ação, como Jacques Douglas, Lucky Martin e Jennifer – faziam parte do meu repertório.
A produção original dessas fotonovelas era geralmente feita por editoras italianas e elas eram conhecidas como fotoromanzi. A grande estrela das fotonovelas era Claudia Rivelli, irmã da premiada atriz Ornella Muti.
Essas revistas eram as minhas favoritas para o 'picote' e eram lidas, com constância, por minha avó materna, com quem eu morava com meu irmão e minha mãe.
Como em toda esquina nos anos 60, havia uma banca de jornal logo na saída do prédio onde morávamos. Minha avó tinha 'conta' na banca e comprava muitas fotonovelas para nós e gibis para meu irmão. Com muito gosto, usava sua aposentadoria para suas leituras e provia de sonhos nossa imaginação de crianças filhas de mãe solo desquitada – algo raro na época.
Minha mãe, que trabalhava todos os dias para sustentar a casa, lia revistas mais informativas, como Realidade e Cruzeiro. Meu irmão – além dos gibis – colecionava enciclopédias sobre animais, cujos fascículos saíam semanalmente nas bancas, mas eu não podia recortar! A partir dessas 'fotografias escolhidas', eu criava personagens e montava cenários.
Lembro-me de construir 'cidades' com os recortes, separando os espaços das casas e colocando na cama os personagens recortados, além de livros físicos que habitavam a estante da minha mãe.
Ou seja, fazia – e desfazia – uma grande bagunça dentro do nosso apartamento enquanto eu – fora do ambiente familiar, uma criança calada – organizava as minhas ideias.
O prédio em que morávamos ficava ao lado de um cinema,
o cine Jamor.
Pelas paredes da sala, eu ouvia o som dos filmes que lá eram exibidos, ao mesmo tempo que frequentava assiduamente as sessões de cinema com minha família.
Aos 5, assisti inúmeras vezes a Help!, o filme dirigido por Richard Lester e protagonizado pelos Beatles. Assim, me apaixonei por John, Paul, George e Ringo até que a morte nos separe a todos. Assim aconteceu, também, com Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, amor à primeira vista. Todos esses 'conhecidos' passaram a fazer parte do meu 'saco de recortes' fotográficos e a protagonizar
minhas histórias.
Mais do que pensar um futuro ao escolher qual carreira seguir – sem consciência do fato –, repensei um passado ao me tornar uma diretora de fotografia. Hoje vejo que fui muito influenciada pelo entorno natural da minha vida na infância. Frequentávamos os cinemas de bairro todo final de semana, eram muitos! Definitivamente, ir ao cinema era o programa preferido dos
Mais do que pensar um futuro ao escolher qual carreira seguir – sem consciência do fato –, repensei um passado ao me tornar uma diretora de fotografia. Hoje vejo que fui muito influenciada pelo entorno natural da minha vida na infância. Frequentávamos os cinemas de bairro todo final de semana, eram muitos! Definitivamente, ir ao cinema era o programa preferido dos
domingos da família.
No cine Sabará assistimos – em estreia, 1967 – a Mogli: O Menino Lobo, dos Estúdios Disney, com personagens e cenários
No cine Sabará assistimos – em estreia, 1967 – a Mogli: O Menino Lobo, dos Estúdios Disney, com personagens e cenários
desenhados à mão!
Ah!... a bomboniere do cine Sabará... Uma só guloseima para cada um, dizia minha mãe. Eu escolhia o pacotinho de 'Delicados', com sua balinha atômica azul de anis; meu irmão, o chocolate Diamante Negro, que dispensa apresentações. Nós acreditávamos, de verdade, que o chocolate tinha dentro diamantes, que se estraçalhavam a cada 'crac' que ouvíamos ao morder um pedaço.
O cine Estrela teve lá seus dias de glória, mas, no início dos anos 70, começou a oferecer um 'cardápio' de pornochanchadas em estreias. Lembro de ver exposto no saguão do cinema o cartaz de Lua de Mel e Amendoim – 1971 – com a diva Renata Sorrah.
Nessa época – sentada ao lado da minha avó –, eu já assistia telenovelas em uma pequena TV Sharp colorida e me apaixonei pela personagem Nívea, interpretada por Renata Sorrah.
A personagem Nívea da novela Assim na Terra como no Céu – escrita pelo dramaturgo Dias Gomes – foi assassinada no início da novela, o que gerou grande repercussão na época, com o público pedindo seu retorno. Para manter a personagem na história, o autor usou flashbacks como linguagem no enredo.
Nos anos 70 era muito comum 'personagens' reais sumirem, mas o meu 'eu criança' não fazia ideia da tristeza que assolava o país.
Quietinha, eu esperava os flashbacks para ver Renata Sorrah na telinha e, a todo custo, em 1971 – pedido não atendido –, queria assistir a Lua de Mel e Amendoim no cinema.
O cine San Remo ficava dentro de uma galeria na Av. Domingos de Moraes e, nesse mesmo espaço, ficava o banco onde minha avó recebia sua aposentadoria.
Não tenho lembranças de época desse cinema, mas no final dos anos 80, após virar uma igreja evangélica – primeiro triste destino de todos os grandes cinemas de rua –, se tornou uma locadora de iluminação do grupo Casablanca, infelizmente por pouco tempo.
Localizado na Av. Jabaquara, o cine Nilo se tornou uma grande loja de móveis nos anos 80.
Quis o destino que o cineasta Reinaldo Pinheiro filmasse um curta-metragem naquele espaço em 1987. O filme – Mais Luz, seu título – aborda, justamente, o universo das salas de cinema de rua e sua decadência, se minha ‘memória falha’ não se colocou em ação. Eu fui assistente de câmera nesse filme e – finalmente – convidei minha mãe, que morava perto, para acompanhar meu trabalho.
Meu irmão se tornou médico – gostava de enciclopédias de animais! – e eu, assistente de câmera de cinema! Ninguém na família entendia o que era meu trabalho. Achei que era uma ótima oportunidade para aproximar nossos universos de mãe e filha, convidando minha mãe para visitar um set de filmagem.
Ao chegar no set, minha mãe – que era massagista e foi nos visitar com uma amiga – me encontrou entre móveis poeirentos carregando duas caixas: a da câmera e uma Apple Box – a muito famosa, no meio cinematográfico brasileiro, a imprescindível 'três tabelas'.
O olhar da minha mãe – constrangido – ao me ver em ação não a deixava mentir: “Minha filha fez uma universidade e carrega caixas!”
AMPLIANDO HORIZONTES
Conheci o cine Astor em 1968, quando assistimos – a família – 2001: Uma Odisseia no Espaço. Não entendi nada; revi depois:
uma obra-prima!
Novamente, um pouco mais adulta – 1970 –, “chorei” para assistir, no mesmo cine Astor, a um filme: Love Story, que era proibido para menores de 16 anos. Desta vez, a vítima escolhida para realizar meus desejos foi minha mãe e, inacreditavelmente, conseguimos driblar a censura e eu pude chorar – desta vez de verdade – na cena em que a heroína morre e lamenta nunca ter conhecido Paris.
No ensino médio – antigo colegial – estudei no Colégio Objetivo e cabulava aulas à tarde para ir ao cinema. Assisti, no cine Gazeta, a O Passageiro, dirigido por Antonioni, e Shampoo, estrelado por Warren Beatty, por quem – novamente – me apaixonei.
Atual Reserva Cultural – que pertence ao querido Jean-Thomas Bernardini –, a escadaria do Colégio Objetivo era parte integrante da experiência de ir ao cinema na Av. Paulista. Enfim, a tentação de não assistir às aulas da tarde e ir ao cinema – sozinha! – era imensa.
No saguão da mesma escadaria tive o prazer de ver meu nome na lista de aprovados no curso de cinema da USP! A Av. Paulista fervia com a alegria de calouros de todas as faculdades!
Ao entrar na universidade, passei de aluna descompensada a cinéfila! Muitos cinemas de rua – ou dentro de galerias – se passaram: cines Palmela, Comodoro, Olido, Regina, Marrocos, Arouche; os icônicos Bijou e Belas Artes – que pertence ao querido André Sturm –; cine Rio, Gemini, Top Cine, Metrópole, Copan, Majestic – atual Espaço Petrobras de Cinema, do mais que querido Adhemar Oliveira –, dentre outros.
Assim como Woody Allen em Hannah e suas Irmãs, acredito que o sentido da minha vida está – marxista que sou – em assistir a filmes dos Irmãos Marx.
Passei a maior parte da vida no cinema, tanto fisicamente quanto em pensamento e coração.
Na universidade, fazíamos semanalmente resenhas sobre filmes brasileiros para o querido professor Carlos Roberto de Sousa. Para isso acontecer, assistíamos semanalmente aos filmes brasileiros que entravam em cartaz, e muitos deles eram pornochanchadas. Com meu caderninho de anotações no colo, frequentemente era abordada por seres indesejáveis que me impediam de completar o trabalho.
No cine Paulistano assisti a um filme pornô em 3D.
Não posso esquecer a Mostra Internacional de São Paulo e suas filas imensas em frente ao Museu de Arte de São Paulo – MASP.
Sonho de estudante: poder comprar uma permanente integral e assistir a cinco filmes por dia na Mostra!
Nem posso deixar de citar os cineclubes Bixiga, Elétrico e da GV – mais uma vez, à frente, está aqui um jovem cinéfilo, André Sturm – e o maravilhoso CineSesc na Rua Augusta!
Enfim, essa é parte da minha gloriosa história como espectadora dos cinemas da minha cidade – São Paulo. Muitos cinemas depois, comecei a assistir aos filmes de que havia participado. Hoje, aos 66, habito – e tenho lá meu 'escritório imaginário' desde 1999 – o florido Cine Café Fellini. Com muitas lembranças, cafés e bolos gostosos feitos por Sílvia.
E lá – espero que demore muito – deixo lavrado aos amigos próximos: joguem minhas cinzas.
Porque – antes – quero conhecer Paris.
Esta é a minha história de amor – ao cinema!
São Paulo (SP) – 27/11/2025
Kátia Coelho iniciou sua carreira no cinema em 1983 como assistente de câmera, trabalhando em 19 filmes como primeira assistente. Foi a primeira mulher a dirigir a fotografia de um longa-metragem no Brasil, recebendo mais de trinta prêmios nacionais e internacionais.
Com Tônica Dominante, de Lina Chamie (2000) ganhou os prêmios Kodak Vision Award - Woman in Film em Los Angeles e APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte. Dirigiu a fotografia de A Via Láctea (2007), filme que representou o Brasil em Cannes.
Faz parte do núcleo de projetos da Veríssimo Produções, onde desenvolveu o roteiro e fez a produção executiva do longa metragem Terra de Ciganos, dirigido por Naji Sidki (2024). Kátia também é a produtora executiva de Dulcina (2019), documentário que retrata a vida da atriz e diretora Dulcina de Moraes, com depoimentos de artistas como Fernanda Montenegro e Ruth de Souza. O filme foi vencedor no Festival de Brasília, se garantindo nas categorias Melhor Longa-metragem pelo júri popular, Melhor Longa da Mostra Brasília pelo júri técnico, Melhor Direção de Arte e Melhor Atriz.
Seu último trabalho como diretora de fotografia foi o longa-metragem Diário de Viagem (2022), dirigido por Paula Kim, uma produção Sam Ka Pur - Dezenove Som e Imagem.
Por Mariana R. Marques.


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