Memórias do cinema de rua - Roberto Gabler Forni


O cinema na minha vida
Por Roberto Gabler Forni (Engenheiro químico e cinéfilo)

Nasci no final dos anos 60, na cidade de São Paulo, e como toda criança paulistana tive o privilégio de me entreter periodicamente no Playcenter, um grande centro de diversões situado na zona Oeste, onde meus pais costumavam me levar junto com meu irmão, Marcos. Tinha tudo o que um parque do gênero tinha de melhor, ou seja, carrossel, montanha-russa, roda-gigante, etc. Mas além de tudo isso, trazia o mundo do cinema para dentro de suas instalações em forma de atrações especiais.

Na época do lançamento, no Brasil, do filme King Kong, produzido por Dino Di Laurentiis em 1976 e estrelado por Jeff Bridges e Jessica Lange, um boneco animatrônico de 15 m de altura imitando o gorila foi exposto no local.


Outra atração do Playcenter foi Contatos Imediatos do Terceiro Grau, montada em 1978. Inspirada no famoso filme de Steven Spielberg de 1977, lembro-me de que trazia um show de luzes e a reprodução de sua famosa trilha sonora, onde eu pude entrar num cenário que lembrava a sequência do longa na qual os humanos se comunicavam com os alienígenas. Foi a primeira experiência imersiva da minha vida.

Dentro deste parque existiu um cinema, mas não se tratava de uma sala com tela plana e cadeiras como de costume. Era o Cinema 180º, que consistia em uma enorme cúpula geodésica, no interior da qual assistia-se a um filme projetado na sua tela curva, na área côncava entre o piso e o topo. Um filme, produzido para ser exibido exclusivamente nele, não tinha um enredo ou diálogos. Tratava-se de uma sequência de imagens e sons simulando realidade virtual, onde os espectadores assistiam em pé como se estivessem em carrinhos de montanha-russa e carros em alta velocidade, em cidades ou estradas à beira de precipícios, filmados em locações e situações reais. A vertigem e os sustos causados no público eram por vezes divertidos, pois algumas pessoas ao meu lado se desequilibravam e caíam no chão.


Vivi muitos momentos memoráveis em minha infância e adolescência com meu primo de segundo grau e amigo Antonio Ricardo Soriano (ou como eu o chamava e ainda chamo, simplesmente Ricardo). Juntamente com ele e meu irmão, tornei-me um cinéfilo.

Nos anos 1980, a diversão dos fins de semana era ir aos cinemas (ainda havia muitas salas na cidade de São Paulo, tais como as de rua, como o Comodoro, o Ipiranga, o Olido, o Marabá, entre outros). Nós não perdíamos nenhum lançamento. Comprávamos os jornais da época, como o Jornal da Tarde, O Estado de S. Paulo ou a Folha da Tarde, para ler os cadernos com a programação de filmes em cartaz, além de aproveitar os recortes de pôsteres dos filmes para colecionar. Íamos de ônibus até o Centro. O preço da entrada era acessível, uns Cr$ 5,00. Já havia cinema de shopping center, como o Center Lapa, na zona Oeste, por exemplo.

O cinema, enquanto veículo de informação, reflete os costumes e valores de uma época em seu contexto histórico. Após as Diretas Já, a censura dos tempos da Ditadura Militar foi aos poucos sendo abolida e os filmes exibidos tanto nas telonas quanto na TV começaram a ser enquadrados por classificação etária. Em 1987, por exemplo, após assistir a uma sessão do filme Robocop: o Policial do Futuro, de Paul Verhoeven e estrelado por Peter Weller, uma entrevistadora me parou na saída do cine Art Palácio, no Largo do Paissandú, e me abordou acerca de uma pesquisa sobre “violência nos filmes”. Era um sinal de que a sociedade começava a preferir a liberdade de expressão com moderação, ao invés de censura com proibição.

Nossa paixão pelo cinema era tanta que eu, o Ricardo e o Marcos criamos um fanzine (um jornalzinho de fãs) dedicado à Sétima Arte, fazendo com que nos reuníssemos periodicamente para redigir textos a partir de pesquisas que fazíamos externamente em bibliotecas (como a do Sesc Pompéia e a situada no complexo da TV Cultura, na Barra Funda) e revistas que comprávamos nas bancas de jornal (como a Cinemin ou Cinevídeo, por exemplo). Eu e o Ricardo fazíamos a redação e o Marcos ajudava com a parte de diagramação e arte. Usávamos máquinas de escrever, pois ainda não tínhamos os PCs e seus editores de textos. Tirávamos cópias Xerox em uma copiadora de qualidade situada na Avenida Paulista, em uma tiragem que não passava de cem exemplares, que distribuíamos a alguns poucos conhecidos.


O Cine Fanzine acabou chegando às mãos de algumas pessoas influentes na área da cultura paulistana. O então programador do Cineclube Oscarito, Andre Sturm, chegou não só a obter um exemplar - ressalvo: não era vendido, mas distribuído de graça, e o máximo de dinheiro que conseguimos foi com anúncios de uma loja especializada em pôsteres e objetos relacionados a cinema da região da Av. Paulista, e de uma videolocadora de fitas VHS situada no Shopping Center Lapa -, mas também publicou um artigo de sua autoria intitulado “Jornada dos Cineclubes” no fanzine. Posteriormente, Sturm tornou-se diretor do MIS - Museu da Imagem e do Som, Secretário de Cultura da Prefeitura de São Paulo e cineasta (com destaque na direção do filme A Conspiração Condor, de 2025).

Essa fase de cinéfilos teve dois grandes momentos: as filmagens de Anjos do Arrabalde - As Professoras em 1986, e a entrevista na TV Cultura.

O primeiro tratou-se do fato de a zona Norte ter sido escolhida para as locações para o filme do diretor Carlos Reichenbach. Lembro-me de estar na casa do Ricardo discutindo sobre textos a serem publicados no fanzine quando, da janela de sua casa, avistamos um guindaste erguendo um cameraman na rua de trás, onde havia um condomínio. Rapidamente corremos para o local pra ver o que acontecia, e soubemos que ali, na Vila Pereira Cerca, as filmagens estavam ocorrendo. Para nós foi o máximo: o cinema havia entrado em nossas vidas mais intensamente ainda! O tema do longa-metragem era a difícil vida de professoras na periferia de São Paulo. Reichenbach era, segundo os críticos, um cineasta “libertário”, e Anjos do Arrabalde expunha aspectos da realidade humana e social sem censura, como sexo, incesto, machismo, suicídio, drogas e marginalidade. Era estrelado por Beth Faria, Clarice Abujamra e José de Abreu. Queríamos entrevistar a produção, mas não conseguimos. Dias depois, fomos à sede da produtora Galante, que se situava na Boca do Lixo, região do Centro onde ficavam as sedes de produtoras cinematográficas nacionais. Conseguimos fotos e algum material escrito, que posteriormente publicamos. Esse filme foi, curiosamente, rodado em grande parte na Vila Mirante, onde morei durante toda minha infância até a juventude. E mais: teve algumas sequências filmadas na Escola Estadual Prof. Geraldo Homero de França Ottoni (que no filme tinha o nome fictício de Luiz Sergio Person, em homenagem a este cineasta), onde eu estudei até a 4ª série (atualmente chamada de ciclo I do Ensino Fundamental)! Havia figurantes interpretando eles mesmos, pois eu os conhecia pessoalmente por serem meus vizinhos na época. Por exemplo: o “Seu” Gonzaga, um vendedor ambulante que tinha uma carrocinha de salgadinhos no portão da escola, e o Augusto, um aluno desta escola. Alguns meses mais tarde, levei toda minha família pra assistir ao filme no cine Turiassú, situado no então Shopping Center Matarazzo (no endereço do atual Bourbon Shopping, na Rua Palestra Itália). Embora a proposta da película não fosse pornografia, fiquei um pouco constrangido devido às cenas de nudez.


O segundo foi o fato de que, por intermédio do Ricardo, obtivemos contato com um funcionário da TV Cultura e conseguimos ter uma participação na gravação de um programa nesta emissora, Imagem & Ação, apresentado pela então jornalista Claudia Matarazzo, que contava com a participação do crítico de cinema Luciano Ramos. Era isso: eu, o Ricardo e o Marcos aparecemos na televisão, apresentando nosso fanzine em uma emissora de TV aberta. Tivemos nossos “15 minutos de fama” do qual Andy Warhol (artista plástico que criou essa expressão nos anos 1960) falava! Foi um momento memorável! O alcance dessa entrevista foi tanto que, alguns dias depois de ir ao ar, recebemos cartas de outros cinéfilos, como por exemplo do fã-clube de Harrison Ford no Brasil, e até de pessoas oferecendo material sobre cinema para publicarmos. Essa participação no programa foi gravada em VHS ao vivo pelos tios do Ricardo. Anos mais tarde, ele preservou a fita e fez uma conversão para o formato DVD, da qual guardo uma cópia até hoje.
 

O cinema para mim sempre foi um acalento em momentos difíceis. Quando eu ia desacompanhado, era uma “fuga da realidade” quando eu me sentia solitário, rejeitado, frustrado. Mas, quando acompanhado, era um ótimo local para sair de casa e levar entes próximos e namoradas para um passeio gostoso! Certas salas de cinema e filmes eram tão bons que eu chegava a assistir o mesmo filme repetidas vezes, pois não importava se eu já soubesse o desfecho final, mas sim vivenciar a mesma experiência diversas vezes. Exemplos disso foram: Pink Floyd: The Wall (Alan Parker, 1982), Tron: Uma Odisseia Eletrônica (Steven Lisberger, 1982) e Os Caçadores da Arca Perdida (Steven Spielberg, 1981) no cine Comodoro. Esta sala proporcionava um verdadeiro espetáculo sensorial: era do tipo Cinerama, com tela côncava e som Dolby Stereo, que amplificava o impacto dos sons e imagens sobre os espectadores. Houve outros que assisti na tela grande (mas que reprisei posteriormente em VHS): Koyaanisqatsi - Uma Vida Fora de Equilíbrio (Godfrey Reggio, 1982), no Cineclube Oscarito, Alien - O 8º Passageiro (Ridley Scott, 1979) no cine Top Cine e Akira (Katsuhiro Ôtomo, 1988) no cine Paramount, entre outros. Em 1987, eu trabalhava em um escritório na Avenida Paulista e tive o privilégio de assistir a uma exibição da animação Fantasia (Walt Disney, 1940) no Cine Paulistano que ficava próximo, mais precisamente na esquina com a Av. Brigadeiro Luís Antônio. Embora tenha sido uma reprise de um filme antigo, o que era incomum de se ver nas salas de cinema da época, foi uma experiência muito diferente das outras, pois antes da projeção uma pianista executou um pot-pourri com trechos da trilha sonora, que consiste em músicas clássicas de Bach, Tchaikovsky, Beethoven, entre outros. Todas as salas mencionadas já não existem mais.

A importância do cinema na minha vida foi fundamental, pois graças a ele aprendi a apreciar a arte e a cultura, e carrego um pouquinho de cada personagem, história e assunto que vi nos filmes em minha personalidade e em meus interesses. A paixão por Rock e a performance de Pink (em Pink Floyd: The Wall), a admiração pela habilidade em pilotar motos de Tron e Kaneda (em Akira), o espírito de aventura de Indiana Jones (em Os Caçadores da Arca Perdida), a estima por Tyrel, o engenheiro criador de replicantes (em Blade Runner: O Caçador de Andróides). A preocupação com a ação humana e urbanização sobre o meio ambiente mostrada em Koyaanisqatsi tem a ver com a escolha de meu TCC da faculdade de Engenharia Química e meu estágio na CETESB.

Cinema não é apenas um meio de comunicação. Cinema não é apenas entretenimento. Cinema não é apenas uma forma de expressão de arte. Assim como a literatura influenciou o teatro, o cinema evoluiu do teatro e do rádio. O vídeo, por sua vez, não existiria sem a linguagem que herdou do cinema.

Cinema é também material de pesquisa para jornalistas e educadores. É um instrumento transformador, um veículo de informações e ideias de intelectuais formadores de opinião.

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BIBLIOGRAFIA DO SITE

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

Site Novo Milênio, de Santos - SP
www.novomilenio.inf.br/santos

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Fotos exclusivas com publicação autorizada no site dos acervos particulares de Joel La Laina Sene, Caio Quintino,
Luiz Carlos Pereira da Silva e Ivany Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.