Memórias do cinema de rua - Luiz Antonio Aguiar


Era uma vez o Caruso, o Asteca, o Joia, o Rian, o Metro, o Paissandú, o Roxy...
Por Luiz Antonio Aguiar - Escritor e roteirista de quadrinhos.

Agora não vou lembrar se era no primeiro ou no último domingo do mês. Sessão matinal. Tom e Jerry. O Gato e o Rato. E todo mês minha mãe reunia os três irmãos e lá a gente ia assistir. Que delícia... No Metro, no meio de Copacabana.

No Asteca, no Catete, tinham os dois leões (ditos astecas) na entrada. Meus irmãos, eu e toda a criançada nos metíamos entre os dentões das duas esculturas. Era o grande barato de ir ao cinema ali.

No Caruso, passavam sempre os filmes estreando. Foi ali que fui barrado pela primeira vez na entrada do cinema porque o fiscal (era tempo do lanterninha, do bilheteiro na porta, e do fiscal do Juizado de Menores de plantão, na entrada – a gente tinha sempre medo dele) exigiu comprovação de idade. Não tinha nada de mais no filme, mas eu errei na conta, quando ele me interrogou, me sabatinando - em que ano eu nascera? Hein? Não sabe... Tá mentindo idade? E eram tempos de proibido para menores... de dez anos. Sim, não era pelo filme, mas por uma certa pirraça de criança ir ao cinema: a censura não queria deixar, a não ser que fosse desenho animado. E se houvesse um beijo, na telona? (alguém aí assistiu Cinema Paradiso?). Carteirinha falsa, com idade aumentada? Sim, tive isso também.

No Rian, lembro mais dos meus primeiros namoros. Foram no escurinho daquele cinema, à beira mar, na Avenida Atlântica. No Joia e no Paissandú, também já na adolescência e na primeira juventude, filmes para encucar a gente, de preferência, europeus.

E tinha o ROXY, um palácio com plateia gigante. Era um evento, ir ao Roxy, uma tela que não tinha mais tamanho, onde cabiam as maiores superproduções de Hollywood, tanto quanto as exuberantes estrelas-crianças, que cantavam e dançavam e interpretavam prodigiosamente. Quando o cinema ainda resistia, dividido em três salas, escrevi uma novela ambientada no Roxy, num Rio de Janeiro distópico, A Hora das Sombras.


Havia outros. Muitos outros. Em todos os bairros.

Todos esses cinemas de minhas evocações desapareceram (restam poucos cinemas de rua no Rio), mas não da minha história de vida. Não poderia contá-la, essa história, se não fossem essas lembranças, se não as guardasse. Ir ao cinema era um programa especial, era sair, era ser envolvido pelo som ao redor, pela sonoplastia e pela música (que aumentavam de volume conforme o pique da cena), pelos efeitos especiais, pela ação que se lançava para cima de você. Era poder chorar (Love Story, no Veneza), levar sustos (Psicose) e trincar os dentes de medo (O Exorcista)... protegido pela escuridão. Era ser transportado para todas as partes do mundo e para fora do mundo (2001: Uma Odisseia no Espaço, Star Wars) – ir a elas, não contê-las, não trazê-las para dentro, mas viajar para elas. Foi um outro modo de viver e de viver o cinema, do milênio passado, é verdade. Mas o passado está sempre presente, não é?

Pelo menos em quem não se contenta com o aqui e agora, para quem o imediato não basta, mas busca o multitempo. Viajar no tempo. Daí, reviver é vivência, viver mais. A memória, a recordação, a lembrança... É sentir os anos vividos ainda e sempre passando. Como num filme.

Rio de Janeiro (RJ), 03 de junho de 2026.

CINEMATECA BRASILEIRA - FOLHETOS DE SALAS

CINEMATECA BRASILEIRA - PERIÓDICOS DE CINEMA

ACESSE O BANCO DE DADOS


BIBLIOGRAFIA DO SITE

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

Site Novo Milênio, de Santos - SP
www.novomilenio.inf.br/santos

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Fotos exclusivas com publicação autorizada no site dos acervos particulares de Joel La Laina Sene, Caio Quintino,
Luiz Carlos Pereira da Silva e Ivany Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.