Memórias do cinema de rua - Luiz Cesar Pimentel


A porta que dá para a rua
Por Luiz Cesar Pimentel - Jornalista, músico, escritor e estrategista de comunicação, PR e IA.

Escrevo este texto no dia seguinte a cumprir um ritual que, para mim, continua sendo uma das formas mais completas de ocupar algumas horas da vida: ir ao cinema. Não apenas assistir a um filme. Ir ao cinema.

A diferença parece semântica, mas não é.

Na noite anterior, caminhei cerca de dois quilômetros até o CineSesc. Dois quilômetros não transformam ninguém em peregrino, mas já bastam para produzir algo que a tecnologia ainda não conseguiu substituir: a expectativa. O trajeto faz parte da sessão. Você sai de casa, atravessa ruas da cidade, vê gente, ouve conversas, sente a temperatura da noite. Quando chega ao destino, já não é exatamente a mesma pessoa que saiu.


Cheguei pela Augusta. A rua estava naquele estado que considero sua melhor versão: viva, mas não histérica; iluminada, mas ainda humana. Dei poucos passos da calçada até a bilheteria. Peguei o ingresso das mãos de uma pessoa de verdade, uma experiência que, em 2026, já possui algo de arqueologia afetiva.

Era a abertura do In-Edit, festival que há anos ocupa um espaço precioso na vida cultural paulistana. Havia conhecidos. Havia amigos. Havia aquela pequena sociabilidade espontânea que os algoritmos jamais conseguiram reproduzir. Conversamos, entramos na fila, comentamos expectativas sobre o filme. Não existia a ansiedade contemporânea pela cadeira perfeita, pelo lugar premium, pela fileira ideal. As pessoas simplesmente entravam e sentavam.

Suspeito que meu batimento cardíaco estivesse em níveis civilizados. O cortisol provavelmente colaborava. O cérebro, por consequência, encontrava-se preparado para aquilo que deveria ser a função primordial do cinema: prestar atenção.

O filme, para dizer a verdade, não era extraordinário. Já vi documentários melhores. Mas saí satisfeito. Porque a experiência havia sido excelente.

E isso me fez pensar novamente sobre os cinemas de rua.

Os cinemas de rua pertencem a uma categoria de estabelecimentos cuja função ultrapassa em muito aquilo que vendem.

Há lugares cuja função oficial interessa menos do que aquilo que realmente entregam. Ninguém entra numa livraria apenas para adquirir papel impresso. Ninguém frequenta um bar só porque está com sede. Com o cinema de rua acontece a mesma coisa. O ingresso é apenas a desculpa. O que se leva para casa costuma ser outra coisa.

Um cinema de rua vende ingressos, mas seu produto principal talvez seja a sensação de pertencimento a uma cidade.

Quando o cinema fica na rua, ele conversa com o bairro. Ele participa da paisagem. Ele se torna referência geográfica e afetiva. Não existe apenas dentro de um empreendimento imobiliário. Ele existe dentro da vida urbana.

Ao longo das últimas décadas, o cinema brasileiro passou por uma transformação radical. Segundo dados da Ancine, o país possui atualmente algo em torno de 3.500 salas de exibição. O dado impressiona à primeira vista. O Brasil nunca teve tantas telas. Só que quase todas passaram a morar no mesmo endereço: o shopping center.

A matemática é impressionante. O Brasil multiplicou telas e reduziu ruas.

Criou-se uma abundância de cinemas e uma escassez de cinemas de rua.

É como se uma cidade resolvesse plantar milhares de árvores dentro de galpões climatizados e depois comemorasse o aumento da área verde.

Os números fariam sentido numa planilha. Caminhando pela cidade, a sensação é outra.

Lembro do Cine Gazeta.

A lembrança vem acompanhada daquela névoa cronológica que acomete qualquer pessoa depois dos cinquenta anos. Tenho a impressão de que aconteceu há aproximadamente trezentos anos, embora os registros históricos sugiram um intervalo um pouco menor.

Foi ali que assisti, durante uma semana inteira, ao filme-show Let There Be Rock, do AC/DC.

Há circunstâncias que explicam comportamentos aparentemente obsessivos.

Primeiro: eu era fã da banda.

Segundo: estávamos falando de uma época anterior ao primeiro Rock in Rio, quando assistir ao AC/DC ao vivo parecia tão provável quanto encontrar um mamute pela mesma Avenida Paulista.

Terceiro: o ingresso do cinema custava um valor compatível com a realidade financeira de um pré-adolescente.

Resultado: fui todos os dias.

Assistia à sessão das duas. Depois à das quatro. Depois à das seis. (Com o mesmo ingresso, mas essa é outra história. Retornemos aos fatos.)

Voltei no dia seguinte e repeti o procedimento.

Hoje, ao reler essa frase, percebo que ela contém um grau de fanatismo que talvez justificasse algum acompanhamento profissional. Na época, parecia apenas uma excelente utilização do tempo.

Mas a memória que permaneceu não é somente a do filme.

Permaneceu a sensação de conquista.

A ideia de que aquilo era um acontecimento.

Era uma experiência ligada àquele lugar, àquela semana e àquele momento da vida. Quando acabou, acabou.

Havia um endereço associado à memória.

A lembrança não mora apenas no AC/DC. Mora também na Paulista. Mora na fachada do cinema. Mora no caminho percorrido até chegar lá.

Talvez seja justamente isso que diferencia os cinemas de rua dos cinemas encapsulados.

O shopping foi concebido para eliminar atritos.

Você estaciona, entra, sobe uma escada rolante, passa por corredores idênticos e chega ao cinema sem precisar estabelecer qualquer relação com a cidade ao redor. É eficiente. Talvez eficiente demais.

Os corredores são planejados para que você permaneça dentro deles o máximo possível. Há algo de cassino nessa lógica. Os cassinos de Las Vegas foram projetados para que o visitante perca a noção do tempo. Os shoppings modernos frequentemente parecem projetados para que o visitante perca a noção da cidade.

O cinema, nesse contexto, torna-se mais uma etapa da circulação.

Uma loja que exibe filmes.

Já o cinema de rua exige alguma participação.

Você precisa chegar até ele. Precisa atravessar a cidade. Precisa perceber onde está. Quando sai da sessão, volta diretamente para o espaço público. A experiência continua. O filme encontra a cidade. E a cidade responde.

Existe também uma questão geracional.

Os jovens de hoje possuem acesso a uma quantidade de conteúdo que minha geração sequer conseguiria imaginar.

Um adolescente pode assistir a praticamente qualquer filme já produzido, em qualquer horário, carregando tudo no bolso.

É um avanço extraordinário.

Ganhou-se uma liberdade enorme. Em compensação, certas experiências deixaram de exigir esforço — e talvez justamente por isso tenham perdido parte do seu valor simbólico.

Quando tudo está disponível, desaparece parte do valor simbólico do encontro.

Quando qualquer filme pode ser assistido a qualquer momento, tornam-se mais raras as ocasiões em que uma obra acontece em um lugar específico, diante de pessoas específicas.

Talvez por isso eu continue valorizando tanto os cinemas de rua. Eles preservam uma dimensão física da cultura. Uma dimensão territorial. Você não apenas consome uma obra. Você comparece a ela.

São Paulo ainda resiste.

O CineSesc continua ali.

O Espaço Augusta de Cinema continua ali.

O Reserva Cultural, instalado sob o mesmo edifício que abriga o velho auditório da Gazeta, continua ali. 

Existem outros sobreviventes espalhados pela cidade e pelo País, guardiões de uma tradição que já ocupou um espaço muito maior na paisagem urbana brasileira.

Durante boa parte do século XX, centenas de cinemas de rua funcionavam nas grandes cidades. Muitos bairros possuíam sua própria sala. Algumas delas eram monumentais, com fachadas que pareciam teatros de ópera e interiores capazes de acomodar milhares de espectadores.

A maior parte desapareceu. Viraram estacionamentos. Igrejas. Farmácias. Agências bancárias. Prédios residenciais.

A cidade muda. Sempre mudou. Sempre mudará.

Mas certas perdas produzem uma espécie particular de melancolia.

Por isso, sempre que passo diante do CineSesc, do Espaço Augusta de Cinema ou do velho espaço da Paulista, diminuo um pouco o passo. Não porque esteja tentando revisitar o passado, mas porque aqueles lugares continuam cumprindo uma função cada vez mais rara: lembrar que a experiência cultural começa antes da sessão e continua depois dela.

Afinal, há uma diferença enorme entre sair de um cinema para um corredor climatizado e sair para a rua.

É na rua que as lembranças costumam esperar por nós.


São Paulo (SP), 18 de junho de 2026.

CINEMATECA BRASILEIRA - FOLHETOS DE SALAS

CINEMATECA BRASILEIRA - PERIÓDICOS DE CINEMA

ACESSE O BANCO DE DADOS


BIBLIOGRAFIA DO SITE

PRINCIPAIS FONTES DE PESQUISA

1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

Site Novo Milênio, de Santos - SP
www.novomilenio.inf.br/santos

FONTES DE IMAGEM

Periódico Acrópole - Fotógrafos: José Moscardi, Leon Liberman, P. C. Scheier e Zanella.

Fotos exclusivas com publicação autorizada no site dos acervos particulares de Joel La Laina Sene, Caio Quintino,
Luiz Carlos Pereira da Silva e Ivany Cury.

PRINCIPAIS COLABORADORES

Luiz Carlos Pereira da Silva e João Luiz Vieira.

OUTRAS FONTES: INDICADAS NAS POSTAGENS.