Georges Jean Renouleau, o pioneiro da exibição cinematográfica em São Paulo

Por José Inácio de Melo Souza

Georges Jean Renouleau, fotógrafo de origem francesa (Bergerac, 7/12/1845), antes de se fixar em São Paulo montou ateliês em Pelotas (1875), Porto Alegre (1878) e Rio de Janeiro (1883-84). Começou a trabalhar na capital paulista a partir de 1885-89, com ateliê fotográfico na Rua Direita, 9. Passou depois para a Rua Marechal Deodoro, 2 (em 1895, atual 15 de Novembro), cujas instalações se incendiaram acidentalmente; Rua General Câmara, 108 (1897), Rua Bento Freitas, 7-A (1897), Rua Direita, 24 (1898-99) e Rua Bento Freitas, 23 (1902).

Como fotógrafo, Renouleau deveria ter contato com os produtos fotográficos da fábrica Lumière, de Lyon, a Société Anonyme des Plaques Lumière. A conjunção decorrente da situação funesta do incêndio do seu ateliê, pelo qual não recebeu os dois seguros a que teria direito, e o aparecimento de uma nova mercadoria, o Cinematógrafo, provavelmente fez com que fosse à França para se iniciar no novo ramo. Consta que teve como sócio na exploração do invento André Bourdelot, que tinha aberto uma loja de brinquedos na Rua Boa Vista, 48-A, em 3/2/1896. Ambos viajaram para a Europa para tratarem da exploração do invento.

O Cinematógrafo tinha sido patenteado em 13/2/1895 por Auguste e Louis Lumière, tendo uma primeira apresentação pública em 22 de março na sala da Société d’Encouragement pour l’Industrie Nationale, quando se apresentou o filme La sortie des usines Lumière (a primeira sessão paga foi no salão inferior de bilhar, o Salon Indien, do Grand Café, Boulevard des Capucines, 14, em 28/12/1895). Porém, entre março de 1895 e maio de 1897, os Lumière não vendiam seus projetores e filmes, preferindo explorá-los por meio de agentes próprios. Renouleau provavelmente foi obrigado a se contentar com uma contrafação do Cinematógrafo Lumière, sendo que nunca usou diretamente a marca de Lyon (segundo Alice Gonzaga, Bourdelot, quando desembarcou no Rio de Janeiro a 5/6/1896, vindo de Bordeaux, intitulou-se “representante do Dr. Merey”, isto é, Étienne-Jules Marey, o inventor da Cronofotografia, posta a venda em 1891). Nas suas apresentações em São Paulo ele se referiu ao “aparelho-fotografia animada”; nas de Porto Alegre, ao “scinematógrapho” e “Animatógrafo modelo francês”. Do conjunto de cerca dez filmes que compunham o seu repertório, somente dois foram identificados como claramente de produção Lumière.

Em 7/8/1896, uma sexta-feira, os dois empresários convidaram o presidente do Estado, Campos Sales, e outras autoridades importantes no panorama da cidade para a estreia da nova invenção: a fotografia animada. A recepção pelos jornais, publicada no dia seguinte, foi divergente. O Estado de S. Paulo noticiou entusiasticamente, na primeira página, o programa exibido (“admirável, assombroso”), embora se enganasse quanto à primazia da projeção pioneira na América Latina (um aparelho chamado Omniógrafo tinha funcionado no Rio de Janeiro em 8 de julho daquele ano). Já o Diário Popular foi reticente: “Fundado nos mesmos princípios que o kinetoscópio, o processo Renouleau deixa ainda alguma coisa a desejar; o movimento não é perfeito, de modo que as figuras desenham-se com um tremor constante que lhes prejudica a nitidez. Esperemos que este inconveniente desapareça com ulteriores experiências. Contudo, é digna de louvores a iniciativa do Sr. Renouleau”.

Em sociedade com André Bourdelot, que tinha chegado a São Paulo em 1890, e classificado por Alice Gonzaga como “financiador da primeira sessão cinematográfica paulista”, ele montou seu projetor na Rua Boa Vista, 48-A, no mesmo endereço da loja de brinquedos do seu sócio e compatriota, pagando ao Tesouro Municipal a quantia de Rs 43$000 (quarenta e três mil réis) sendo trinta mil réis pela licença e treze mil réis pelo alvará para a “exposição do aparelho-fotografia animada” por 30 dias (1/8/1896). Na Rua Boa Vista, nº 48, funcionava o Frontão Paulista. O número 48-A era o de uma loja térrea, como se pode ver pela planta. Pelas dimensões, e ainda como negócio de Bourdelot, o prédio não tem as características de “casarão vazio” adaptado, como escreveu Máximo Barro. Ele organizou apresentações públicas pagas e diárias entre 8 de agosto e, provavelmente, 7 de setembro com três sessões de quatro filmes à tarde (13, 14 e 15 horas) e quatro à noite (18, 19, 20 e 21 horas) ao preço de Rs 1$000 (mil réis) a cadeira. Ao final da licença, no início de setembro, ele eliminou as sessões diurnas.

Encerradas as exibições em São Paulo, partiu para Porto Alegre, onde estreou a 8/11/1896. A sua carreira de exibidor ambulante terminou aí, pois no ano seguinte voltou à profissão de fotógrafo. Em 14/2/1898, Bourdelot transferiu a casa de brinquedos para Eduardo Gay. Sabe-se que em 1911 ele era fabricante de joias na Rua Boa Vista, 39-A, com filial na Rua do Rosário, 14. Os negócios devem ter ido bem porque naquele ano pediu o aumento de um prédio na Rua Tomé de Souza e a construção de duas casas na Rua Duarte de Azevedo, no bairro de Santana.

Renouleau foi casado em segundas núpcias com Rosa Maria Martin.

Texto disponibilizado na internet.

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1. Arquivos institucionais e privados

Bibliotecas da Cinemateca Brasileira, FAAP - Fundação Armando Alvares Penteado e Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - Mackenzie.

2. Principais publicações

Acervo digital dos jornais Correio de São Paulo, Correio Paulistano, O Estado de S.Paulo e Folha de S.Paulo.

Acervo digital dos periódicos A Cigarra, Cine-Reporter e Cinearte.

Site Arquivo Histórico de São Paulo - Inventário dos Espaços de Sociabilidade Cinematográfica na Cidade de São Paulo: 1895-1929, de José Inácio de Melo Souza.

Periódico Acrópole (1938 a 1971)

Livro Salões, Circos e Cinemas de São Paulo, de Vicente de Paula Araújo - Ed. Perspectiva - 1981

Livro Salas de Cinema em São Paulo, de Inimá Simões - PW/Secretaria Municipal de Cultura/Secretaria de Estado da Cultura - 1990

Site Novo Milênio, de Santos - SP
www.novomilenio.inf.br/santos

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